A pior viagem
Era um trem da Magyar Államvasutak, ou, como eles chamam, Máv. A linha: Bucureşti Gara de Nord – Praha hlavní nádraží. A viagem toda dura mais de 24 horas, quando sem atrasos, mas a peguei na metade final. Embarquei na estação Budapest Keleti pályaudvar, ou, como eles chamam, Budapest Keleti pu. Era o começo da pior viagem que já fiz na minha vida.

O trem já estava na estrada há 13 horas, sacolejando desde a distante Bucareste, capital romena que fica quase na esquina com a Bulgária. Ao chegar em Budapeste, sentia o calor que emanava das rodas de ferro que já deviam ter rodado milhões de quilômetros por aquelas ferrovias construídas durante o regime soviético. Uma baciada de gente feia descia pelas portas apertadas enquanto observávamos impávidos aquele povo sofrido. Nós, fortes e bem-nutridos, com nossas mochilas pesadas e toda a garra de um passeio absurdo pelos cantos da Europa. Era começo de noite na Hungria e o sol ainda estava longe de se pôr. Seus raios alaranjados passavam pelos vidros e pela grandiosa entrada da estação.
Às 19h17, partimos.
Deixava para trás uma cidade pela qual me apaixonei e o medo começava a tomar conta de mim: serei assaltado? morto? seqüestrado? Às 21h32 chegamos em Győr e deixamos o país da língua do demônio para entrar na Eslováquia. Tempos depois, o trem passou lentamente pelo centro de Bratislava até ficar vinte e quatro minutos parado em Bratislava Hlavna Stanica, a principal estação da capital eslovaca. O relógio batia 23h44 quando voltamos a nos movimentar e eu olhava pela janela as luzes dos outdoors naquele país que não existia 14 anos antes.
Nesses momentos pensava o que meus amigos e minha família estariam fazendo no Brasil, onde ainda não eram 18h. Talvez estivessem no trânsito ou em casa vendo a novela. Eu não. Eu estava num trem na Eslováquia.
Břeclav foi a primeira parada na República Tcheca, à 1h15. Passamos por Brno, a segunda maior cidade do país, às 2h15 e finalmente chegamos a Praga, terra natal de Franz Kafka e da Revolução de Veludo, às 6h14. Foram onze horas no balanço, no desconforto e na sujeira. Isso foi há exatamente um ano.
Sinto saudades.
144,75 dias
Usei o Google pra fazer a conta de “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, filme do romeno Cristian Mungiu e vencedor da Palma de Ouro em Cannes. A esta altura do campeonato, todos já sabem do que se trata: é a história de uma jovem que decide fazer aborto – e o título remete ao tempo de gravidez até o dia D.
Isso seria plenamente normal se a jovem estivesse na Romênia atual, onde o aborto é legalizado e praticado em hospitais públicos e particulares por aproximadamente 75% das grávidas. Lembro-me bem de conversar com uma colega romena (sim, acredite) e ouvi-la falar que “se eu ficar grávida, é só abortar”. Um choque pra nós, conservadores religiosos.
Como o filme se passa em 1987, a dois anos do fim da ditadura comunista de Nicolae Ceauşescu, a brincadeira é um pouco diferente. Naquele momento o aborto era proibido, a situação econômica era precária e o país estava atrasado. Não que as coisas tenham mudado muito, tanto que algumas pessoas comentam (desde 2004) que a Romênia entrou “cedo demais” na União Européia…

Mungiu faz escolhas belas na composição de suas cenas, como o grande momento em que Otilia está sentada à mesa no jantar de aniversário de sua sogra com a cabeça a mil, pensando no que estaria acontecendo com sua amiga grávida Gabita, enquanto os outros convidados soltam suas barbaridades amenas típicas. A câmera geralmente posicionada numa altura baixa, cenas fechadas e a ausência de trilha sonora se somam para tornar abordagem seca e naturalista.
O tratamento duro que o diretor nos dá durante todo o filme é amenizado quando as amigas pagam parte do custo do aborto com sexo e nada é mostrado ou quando surge a cena mais comentada pela imprensa: o feto. Pra mim, toda a força dessa dureza se esvaiu naquele quase-humano de uns 15 centímetros deixado limpo e impecável sobre um pano no chão do banheiro. Não houve sangue, não houve dor. Ou melhor: se houve, fomos poupados.
O diretor, que dependendo do seu ponto de vista poderia parecer estar fazendo um filme anti-aborto ou pró-aborto, nos deixa em dúvida. Para o que ele está tentando abrir nossos olhos mesmo? Gabita, no momento de humor negro, vai para o restaurante do hotel onde o aborto foi feito e come um prato com vários tipos de carne. Não há esperança nessa Romênia.
Três filmes
Os últimos três filmes aos quais assisti foram os seguintes…
“A Vida dos Outros”, do alemão Florian Henckel, mostra a vida de um escritor da Alemanha Oriental sendo acompanhada dia e noite pelo governo socialista. Um dia decidem que aquele homem, cujos livros fazem sucesso no lado capitalista, poderia ser uma ameaça. Desenrola-se um melodrama onde os maus podem ter coração, tudo sem muita discussão. Uma história ótima que vai sendo esvaziada no decorrer do filme, que pouco a pouco se torna um novelão.
“A Culpa é do Fidel”, da grega Julie Gavras, é a primeira experiência ficcional dessa documentarista filha do conhecido diretor Costa-Gavras. Nela, um advogado espanhol radicado em Paris faz uma viagem ao Chile acompanhado de sua mulher numa tentativa de redimir seus pecados. Ele foi embora da Espanha fascista e, depois de um tio ser morto pelo regime de Franco, percebe a covardia de seus atos passados. Acontece que o casal volta revolucionário e sua filha não entende as razões que levaram sua família a se mudar de uma grande casa para um pequeno apartamento e a proibi-la de assistir às aulas de catecismo.
Crianças são crianças e, como tal, são curiosas. Em conversas com sua avó, a menina descobre que os comunistas são barbudos, vermelhos e querem tirar tudo que eles, a burguesia, têm. Já num bate-papo com sua antiga babá fugida de Cuba, ela aprende que a culpa, bem, a culpa é do Fidel, que quer fazer a guerra nuclear. Rapidamente ela junta as peças do quebra-cabeça, vê que aqueles barbudos que passaram a freqüentar seu novo apartamento são comunistas e começa a questionar as atitudes dos pais.
O casal de irmãos é a origem das piadinhas e situações engraçadas que permeiam o filme, como o momento em que o garoto pergunta se o Papai Noel é comunista – já que ele é barbudo e vermelho. A garota, numa noite insone, conversa com os amigos revolucionários da família e ensina a eles que, no capitalismo, o importante é ter lucro. Seria ótimo se não tivesse me lembrado toda hora de outros filmes onde questões políticas são vistas pelos olhos de uma criança, como “Machuca”, de Andrés Wood. Esse, aliás, que trata de um tema muito próximo ao de Julie Gavras: a ditadura pós-Allende no Chile.
“Jogo de Cena”, do brasileiro Eduardo Coutinho, deveria ser visto por todos atores e aspirantes. Mas não só. O documentarista fez anúncios em jornais e escalou mulheres para contarem episódios interessantes de suas vidas. A premissa é simples, mas o resultado é sensacional. Além das mulheres anônimas, Coutinho convocou atrizes conhecidas ou não para encenarem as mesmas histórias. No meio disso tudo, as atrizes também contaram coisas reais e assim a confusão se formou.
As histórias fortes tratam de gravidez, morte e separação. Algumas são engraçadas, outras são tristes e outras até misturam tudo. Uma das atrizes diz que, ao fazer um personagem fictício, você pode atingir um nível medíocre e tudo estará bem, mas ao fazer um personagem real as coisas se tornam muito mais difíceis. Até que ponto ela está imitando ou recriando aquela pessoa? Outra diz que o choro é algo importante na TV e que pessoas de verdade tentam escondê-lo a todo custo, como uma forma de demonstrar força. É difícil saber quem está falando a verdade ou quem a está apenas encenando.
Sem fronteiras
Desde hoje foram eliminados os controles de passaporte na chegada de viajantes vindos de quase toda União Européia para a República Tcheca, Hungria, Estônia, Letônia, Lituânia, Malta, Polônia, Eslováquia e Eslovênia. O que esses novos membros do Acordo de Schengen têm em comum? Com exceção de Malta, são todos ex-repúblicas soviéticas.

Entre outras coisas, isso significa que esses carimbos na imagem acima não mais existirão numa hipotética viagem entre Alemanha, Hungria e República Tcheca. Na época em que percorri esse caminho, os policiais de fronteira vinham checar o passaporte, mas já não faziam perguntas. Dizem que a entrada desses novos países para o clube é o fim definitivo da Cortina de Ferro, mas acho que ninguém nem se lembrava mais disso. E, claro, há opositores achando que a abertura das fronteiras vai trazer uma leva de imigrantes do Leste pobre para o Oeste rico, como se eles já não estivessem vivendo e trabalhando de Portugal à Áustria. E mais criminalidade. Enquanto isso, o Reino Unido e a Irlanda continuam isolados em suas ilhas.
É interessante pensar também que essa Europa sem fronteiras encontra alguns problemas dentro de seus próprios países. Os movimentos separatistas na Espanha, por exemplo, são inegáveis. A Catalunha é extremamente independente, assim como o País Basco – que chega a dizer que suas relações com Madri são relações de Estado para Estado. Essas duas são as regiões mais avançadas nessa questão, mas outras, como a Galícia, também poderiam se separar numa possível divisão do território espanhol. Não à toa, todos acompanham com extremo interesse as questões fronteiriças na antiga Iugoslávia. “Se o Kosovo pode se separar, por que nós também não?”, poderiam pensar os catalões e bascos. Mas isso é outro assunto…


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