Dois meses

Três filmes

Publicado em Sem categoria por Elder em Janeiro, 2008

Os últimos três filmes aos quais assisti foram os seguintes…

“A Vida dos Outros”, do alemão Florian Henckel, mostra a vida de um escritor da Alemanha Oriental sendo acompanhada dia e noite pelo governo socialista. Um dia decidem que aquele homem, cujos livros fazem sucesso no lado capitalista, poderia ser uma ameaça. Desenrola-se um melodrama onde os maus podem ter coração, tudo sem muita discussão. Uma história ótima que vai sendo esvaziada no decorrer do filme, que pouco a pouco se torna um novelão.

“A Culpa é do Fidel”, da grega Julie Gavras, é a primeira experiência ficcional dessa documentarista filha do conhecido diretor Costa-Gavras. Nela, um advogado espanhol radicado em Paris faz uma viagem ao Chile acompanhado de sua mulher numa tentativa de redimir seus pecados. Ele foi embora da Espanha fascista e, depois de um tio ser morto pelo regime de Franco, percebe a covardia de seus atos passados. Acontece que o casal volta revolucionário e sua filha não entende as razões que levaram sua família a se mudar de uma grande casa para um pequeno apartamento e a proibi-la de assistir às aulas de catecismo.

Crianças são crianças e, como tal, são curiosas. Em conversas com sua avó, a menina descobre que os comunistas são barbudos, vermelhos e querem tirar tudo que eles, a burguesia, têm. Já num bate-papo com sua antiga babá fugida de Cuba, ela aprende que a culpa, bem, a culpa é do Fidel, que quer fazer a guerra nuclear. Rapidamente ela junta as peças do quebra-cabeça, vê que aqueles barbudos que passaram a freqüentar seu novo apartamento são comunistas e começa a questionar as atitudes dos pais.

O casal de irmãos é a origem das piadinhas e situações engraçadas que permeiam o filme, como o momento em que o garoto pergunta se o Papai Noel é comunista – já que ele é barbudo e vermelho. A garota, numa noite insone, conversa com os amigos revolucionários da família e ensina a eles que, no capitalismo, o importante é ter lucro. Seria ótimo se não tivesse me lembrado toda hora de outros filmes onde questões políticas são vistas pelos olhos de uma criança, como “Machuca”, de Andrés Wood. Esse, aliás, que trata de um tema muito próximo ao de Julie Gavras: a ditadura pós-Allende no Chile.

“Jogo de Cena”, do brasileiro Eduardo Coutinho, deveria ser visto por todos atores e aspirantes. Mas não só. O documentarista fez anúncios em jornais e escalou mulheres para contarem episódios interessantes de suas vidas. A premissa é simples, mas o resultado é sensacional. Além das mulheres anônimas, Coutinho convocou atrizes conhecidas ou não para encenarem as mesmas histórias. No meio disso tudo, as atrizes também contaram coisas reais e assim a confusão se formou.

As histórias fortes tratam de gravidez, morte e separação. Algumas são engraçadas, outras são tristes e outras até misturam tudo. Uma das atrizes diz que, ao fazer um personagem fictício, você pode atingir um nível medíocre e tudo estará bem, mas ao fazer um personagem real as coisas se tornam muito mais difíceis. Até que ponto ela está imitando ou recriando aquela pessoa? Outra diz que o choro é algo importante na TV e que pessoas de verdade tentam escondê-lo a todo custo, como uma forma de demonstrar força. É difícil saber quem está falando a verdade ou quem a está apenas encenando.

We, the people…

Publicado em aleatório por Elder em Dezembro, 2007

Aqui no Brasil a gente tem uma mania insaciável: defender as cores da pátria onde quer que estejamos. É tão mania nacional quanto o futebol.

Há nove dias, a publicação de um texto em português num site americano causou a discórdia nas mensagens que se seguiram. Não, não estavam comentando o teor do texto… Tudo começou com um usuário dizendo “Our national language is English! If you want to post something, do so in English”. Apesar do fato de não haver língua oficial nos Estados Unidos, o que se viu foi uma grande e improdutiva discussão sobre a necessidade de se escrever em inglês no tal site (pois ele é nos EUA, a maior parte de seu conteúdo é em inglês etc.) e sobre a dominação americana da internet.

Blame it on Lisa

Isso sem eu citar a invasão brasileira no Orkut.

É Natal, gente. Um tempo de alegria, felicidade e compreensão. Ah, mas não para os brasileiros ufanistas. Outro site, dessa vez um de humor, publicou algo sobre “Seis tradições natalinas insanas do resto do mundo“. Claro que Pindorama aparecia entre as seis tradições bizarras e o texto dizia que o Papai Noel vem pra cá naquela roupa de frio apesar do calor, que temos animais falantes na nossa versão da história do nascimento de Cristo e que um cigano (?) seqüestra a criança. Me diz qual o problema. A seção sobre a tradição italiana é, por assim dizer, muito mais desrespeitosa com o povo da pizza pois diz que o bom velhinho deles é uma bruxa que não quis visitar Jesus e que passa o resto da eternidade procurando por ele de casa em casa. Ok, desrespeitosa? Pensando bem, nem um pouco.

Mas os brasileiros preocupados apareceram com suas mensagens edificantes como “Não consegui não ficar revoltado com a merda que você escreveu gringo idiota”, em português, como manda o figurino anti-imperial. E sem a vírgula que deveria estar entre “escreveu” e “gringo idiota”, como manda o figurino anti-gramatical. Ainda bem que eles não viram esse outro post no mesmo site.

Isso sem eu pretensiosamente analisar o fetiche que a grande mídia brazuca tem pela repercussão de nossas importantes (sic) notícias nos principais jornais do mundo.

Espera. “A gente” não defende as cores da pátria, não. Eu não defendo. Até parece que vou ficar perdendo meu tempo com isso. Do que adianta ficar por aí, em fóruns online, xingando aleatoriamente os gringos que se divertem com nossos estereótipos quando vídeos como o abaixo são publicados no YouTube?

Sem fronteiras

Publicado em aleatório por Elder em Dezembro, 2007

Desde hoje foram eliminados os controles de passaporte na chegada de viajantes vindos de quase toda União Européia para a República Tcheca, Hungria, Estônia, Letônia, Lituânia, Malta, Polônia, Eslováquia e Eslovênia. O que esses novos membros do Acordo de Schengen têm em comum? Com exceção de Malta, são todos ex-repúblicas soviéticas.

carimbos_leste.jpg

Entre outras coisas, isso significa que esses carimbos na imagem acima não mais existirão numa hipotética viagem entre Alemanha, Hungria e República Tcheca. Na época em que percorri esse caminho, os policiais de fronteira vinham checar o passaporte, mas já não faziam perguntas. Dizem que a entrada desses novos países para o clube é o fim definitivo da Cortina de Ferro, mas acho que ninguém nem se lembrava mais disso. E, claro, há opositores achando que a abertura das fronteiras vai trazer uma leva de imigrantes do Leste pobre para o Oeste rico, como se eles já não estivessem vivendo e trabalhando de Portugal à Áustria. E mais criminalidade. Enquanto isso, o Reino Unido e a Irlanda continuam isolados em suas ilhas.

É interessante pensar também que essa Europa sem fronteiras encontra alguns problemas dentro de seus próprios países. Os movimentos separatistas na Espanha, por exemplo, são inegáveis. A Catalunha é extremamente independente, assim como o País Basco – que chega a dizer que suas relações com Madri são relações de Estado para Estado. Essas duas são as regiões mais avançadas nessa questão, mas outras, como a Galícia, também poderiam se separar numa possível divisão do território espanhol. Não à toa, todos acompanham com extremo interesse as questões fronteiriças na antiga Iugoslávia. “Se o Kosovo pode se separar, por que nós também não?”, poderiam pensar os catalões e bascos. Mas isso é outro assunto…