Dois meses

Um grande parágrafo sobre Chartres

Publicado em aleatório por Elder em Setembro, 2009

A cidade tem 40 mil habitantes, fica a 90 quilômetros de Paris e é capital do departamento de Eure-et-Loir. Fundada há muitos e muitos  séculos (existem evidências de presença humana na região já na pré-história), sua maior atração turística é a Catedral de Notre-Dame de Chartres, cuja construção começou em 1205 e terminou em 1271. Hoje  ela é considerada uma das melhores representações da arquitetura gótica e, em 1979, foi tombada como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.

Antes da construção da catedral atual, existiram cinco outras igrejas  no mesmo local, sendo a primeira delas a Catedral de Aventin – por  volta do ano 350. Naqueles tempos, a região era ponto de encontro dos  peregrinos que iam à cidade para participar de festas católicas e, mais importante, para ver o suposto manto da Virgem Maria — em exposição no templo desde 876, quando Carlos II, (o Calvo, filho de Carlos Magno) o teria doado após tê-lo ganho de presente numa Cruzada em Jerusalém.

A quarta igreja antiga pegou fogo junto com o resto da cidade num grande incêndio em 1134 e acreditou-se que o manto teria sido destruído. Então, num belo dia, um cardeal de Roma estava visitando Chartres e, para a surpresa de todos, a relíquia foi encontrada em meio às cinzas! O evento foi rapidamente dado como milagre e um sinal de Maria. Em pouco tempo conseguiram arrecadar dinheiro suficiente para contruir a maior e mais bela catedral da França… Ah, como eram bobinhos os europeus do século XII.

Interior da catedral de Chartres

Interior da catedral de Chartres

A catedral como a conheçemos hoje ficou pronta em 1260. Suas curiosidades são o labirinto de 261,55 metros (onde quem o percorrer estará fazendo o caminho para encontrar-se com Deus) e os vitrais, sempre citados por serem os mais bem preservados da época medieval e por trazerem em alguns de seus vidros a cor que ficou conhecida como “azul de Chartres”.

Como não poderia deixar de ser, Chartres esconde um segredo. Ou pelo menos é isso que dizem os que lêem livros tipo “O código Da Vinci” e os que crêem em teorias e conspirações. Por exemplo, Laurence Garner é historiador revisionista (seus adversários preferem chamá-lo de “pseudohistoriador”) cujo principal livro é “A linhagem de sangue do Santo Graal.” Ele fez um estudo sobre a localização das várias igrejas de Notre Dame no norte da França. Sua conclusão? Ora, as igrejas foram construídas numa disposição geográfica específica que, vista no mapa,
lembra a formação estelar da constelação de Virgem.

Pegou? As igrejas construídas no norte da França em homenagem à Virgem Maria formam, no mapa, a constelação de… Virgem! Veja:

Chartres

Chartres está bem no meio

No entanto, brincar com estrelas e constelações é completamente pagão e nem um pouco cristão. Se a gente traçar um círculo, juntar umas linhas e… ei! Leonardo, é a Mulher Vitruviana!

Chartres está, na verdade, num lugar bem importante

Chartres está, na verdade, num lugar importante

E veja só onde fica Chartres. Isso precisa significar alguma coisa.

Cegueira

Publicado em aleatório por Elder em Setembro, 2008

Simples assim: eu achei que deveria falar de “Ensaio sobre a Cegueira“, novo filme do Fernando Meirelles. Com roteiro baseado no livro homônimo do José Saramago, português ganhador do Nobel, eu decidi que seria algo infilmável. Mas veja bem, eu li o livro em 2004. Me lembrei que ao lê-lo, imaginava milhões de cenas na minha mente criativa. Por que não seria possível transpô-las para a tela?

Morumbi - Brooklin way of life

Ora, nossa cabeça consegue manter dezenas de linhas de pensamento ao mesmo tempo. Você pode até não se dar conta disso, mas há muitas camadas de pensamentos na sua mente neste exato instante. Assim fica razoavelmente fácil conseguir imaginar qualquer coisa, inclusive um livro um pouco mais complexo como esse.

Complexo pois trata de uma coisa difícil de ser transformada em imagens. A cegueira, por sua própria característica, não é passível de maiores explicações. Uma cegueira branca, então, fica pior. Você imagina como deve ser, mas ver isso no cinema é difícil.

Exposto isso, aviso que esperava com ansiedade. Queria ver o resultado da produção, acompanhava o blog, lia as notícias. A ansiedade aumentou mais ao ver o teaser e o trailer.

E o filme?

Será sempre um prazer ver São Paulo sendo retratada sem ser na novela ou nas câmeras quase-VHS dos filmes brasileiros. Os primeiros segundos foram diferentes. Faria Lima com Juscelino, carros tipicamente brasileiros e atores falando inglês? Depois veio aquela sucessão de coisas que são estranhas pra quem mora na cidade: do Itaim para Higienópolis em duas cenas, dali para algum lugar do outro lado do rio, então para os Jardins e, finalmente, para o que parece ser Pinheiros. Pontes Eusébio Matoso e Bernardo Goldfarb tiveram seus momentos de fama – assim como sua prima rica, a Octávio Frias de Oliveira.

Achei que a fotografia tornou-se inconveniente. No começo era bacana ver a brincadeira “cegueira branca/tons brancos” mas depois encheu. Junto com os reflexos. Mas isso não é o mais importante.

O Minhocao fica assim aos domingos

O Minhocão fica assim aos domingos

Não houve maior desenvolvimento dos personagens. Do pouco que me lembro do livro, nele também não havia muitas delongas na história, mas isso se potencializou quando transformado em filme. O mesmo aconteceu com as cenas. Edição muito rápida, não deu pra parar e pensar no que estava vendo. A hora e meia que se passa dentro da quarentena trouxe muita informação e pouco tempo hábil para processamento.

Não vou reclamar do suposto esmaecimento das cenas nojentas ou violentas. Meirelles manteve, por exemplo, a cena que mais me marcou no quesito “nojeiras” enquanto eu lia o texto. E convenhamos que também não há muito como tornar mais ou menos violenta uma cena de estupro, que foi a mais comentada enquanto se produzia o filme. Qual teria sido a primeira versão, que foi cortada após senhorinhas terem saído da sala de exibição numa sessão piloto? Sexo explícito? Não era a isso que o filme se propunha e, se for assim, ok.

E um narrador não era necessário. Ele se dá ao luxo de explicar o que está acontecendo no final da história. Por quê? Por quê?

Regular.

O Grande Colisor de Hádrons

Publicado em aleatório por Elder em Setembro, 2008

O CERN é a Organisation européenne pour la recherche nucléaire ou, em português, Conselho Europeu para a Pesquisa Nuclear. Essa instituição está localizada nos arredores de Genebra, bem na fronteira da França com a Suíça — inclusive pode-se entrar no centro de pesquisas pela Suíça e sair pela França ou vice-versa.

CERN

Aí no meio passa a fronteira da França com a Suíça

Quando estive em visita a essa bela cidade-sede da ONU, quase fui ao CERN. Para chegar lá é bem fácil: pega-se um ônibus na Gare de Cornavin e, em minutos, alcança-se a portaria. Não fui pois me disseram que não tem nada pra ver lá. Meu objetivo era poder dizer aos amigos que já estive no lugar onde foi inventada a World Wide Web.

Sim, senhores. Foi no CERN que criaram essa maravilha que é a plataforma em que se baseiam todas as páginas da internet. Sempre que você digita www-alguma-coisa está usando uma tecnologia desenvolvida nos laboratórios do CERN.

Hoje, 10 de setembro, é um dia muito importante para a história desse lugar e para a história do mundo. Dentro de mais algumas horas o LHC – Large Hadron Collider será ligado. Esse aparelho, enterrado cem metros abaixo dos prédios que formam o complexo franco-suíço, é o maior acelerador de particulas já criado pelo homem.

A primeira vez que li sobre um acelerador de partículas certamente foi numa Superinteressante qualquer, décadas atrás. Desde então me maravilho com essas coisas.

Grosso modo, o LHC é um tubo circular com 27 quilômetros de diâmetro (imagine o tamanho) onde prótons serão jogados uns contra os outros a velocidades próximas à da luz. Com custo estimado em 8 bilhões de reais, o objetivo do tubão é criar outras partículas e enxergar pela primeira vez o bóson de Higgs, uma das partículas elementares que formam tudo que existe. Além disso, os físicos pretendem encontrar outras dimensões. É sério.

Às três e meia da manhã no Brasil, oito e meia na Suíça, vão ser iniciadas as experiências que podem levar ao fim do mundo.

Há algum tempo circulam pela imprensa e pela internet textos onde se chama a atenção para a possibilidade do LHC provocar pequenos buracos negros que, como qualquer buraco negro, engoliriam o que estiver em seu redor. Uma reação em cadeia poderia levar o universo a desaparecer em minutos.

Outra possibilidade, igualmente poética, seria a criação de strangelets. Essas partículas, como o nome diz, são “estranhas” e, bem, podem acabar com o universo através de um processo de fusão. Tudo se tornaria uma grande massa, talvez uma grande gosma negra. Em ambos os casos, terminaríamos todos juntos, grudados, para sempre.

Para saber se o LHC já destruiu a vida e a não-vida, clique aqui.

Foi um prazer.

A pior viagem

Publicado em aleatório por Elder em Julho, 2008

Era um trem da Magyar Államvasutak, ou, como eles chamam, Máv. A linha: Bucureşti Gara de Nord – Praha hlavní nádraží. A viagem toda dura mais de 24 horas, quando sem atrasos, mas a peguei na metade final. Embarquei na estação Budapest Keleti pályaudvar, ou, como eles chamam, Budapest Keleti pu. Era o começo da pior viagem que já fiz na minha vida.

O trem já estava na estrada há 13 horas, sacolejando desde a distante Bucareste, capital romena que fica quase na esquina com a Bulgária. Ao chegar em Budapeste, sentia o calor que emanava das rodas de ferro que já deviam ter rodado milhões de quilômetros por aquelas ferrovias construídas durante o regime soviético. Uma baciada de gente feia descia pelas portas apertadas enquanto observávamos impávidos aquele povo sofrido. Nós, fortes e bem-nutridos, com nossas mochilas pesadas e toda a garra de um passeio absurdo pelos cantos da Europa. Era começo de noite na Hungria e o sol ainda estava longe de se pôr. Seus raios alaranjados passavam pelos vidros e pela grandiosa entrada da estação.

Às 19h17, partimos.

Deixava para trás uma cidade pela qual me apaixonei e o medo começava a tomar conta de mim: serei assaltado? morto? seqüestrado? Às 21h32 chegamos em Győr e deixamos o país da língua do demônio para entrar na Eslováquia. Tempos depois, o trem passou lentamente pelo centro de Bratislava até ficar vinte e quatro minutos parado em Bratislava Hlavna Stanica, a principal estação da capital eslovaca. O relógio batia 23h44 quando voltamos a nos movimentar e eu olhava pela janela as luzes dos outdoors naquele país que não existia 14 anos antes.

Nesses momentos pensava o que meus amigos e minha família estariam fazendo no Brasil, onde ainda não eram 18h. Talvez estivessem no trânsito ou em casa vendo a novela. Eu não. Eu estava num trem na Eslováquia.

Břeclav foi a primeira parada na República Tcheca, à 1h15. Passamos por Brno, a segunda maior cidade do país, às 2h15 e finalmente chegamos a Praga, terra natal de Franz Kafka e da Revolução de Veludo, às 6h14. Foram onze horas no balanço, no desconforto e na sujeira. Isso foi há exatamente um ano.

Sinto saudades.

3 de Maio

Publicado em aleatório por Elder em Maio, 2008

BR-3 fazendo escola

Publicado em aleatório por Elder em Março, 2008

Pra quem não sabe, “BR-3″ é uma peça do grupo Teatro da Vertigem que foi encenada dentro do rio Tietê.  Algumas das sensações mais estranhas que já senti aconteceram ali, num barco navegando pelo grande esgoto que corta minha cidade. Meses e meses mais tarde, repeti a experiência na Baía da Guanabara, quando a trupe reencenou a peça dentro do festival RioCenaContemporânea. A piadinha “o Vertigem vai encenar ‘BR-3′ no RioCena” ficou mais verdadeira depois que li uma reportagem sobre o Tietê (ou quase isso) no Valor Econômico de quinta-feira.

Que cena foi aquela? Um grupo de gente sobre o convés de um barco, navegando em pleno rio Tietê, erguendo os braços e fazendo “ola” para motoristas de carros, ônibus e caminhões nas marginais travadas, numa manhã cinzenta em São Paulo, na altura do Cebolão? E os motoristas dos carros, ônibus e caminhões, todos devidamente engarrafados, respondendo com acenos e buzinas aos amalucados que navegavam no trecho urbano mais degradado do rio, tomando Prosecco e escutando um saxofonista como se tudo aquilo fosse muito natural? Pois aconteceu no sábado passado e espantou até os urubus que espreitavam às margens.

Assim começa o texto “Bem-vindo ao Tietê“, da Daniela Chiaretti, sobre uma estranha visita de um grupo de arquitetos e amigos de arquitetos ao rio. “Estou me sentindo em Paris”, arrisca Ana Mantovani, professora de história da arte. Realmente o Tietê é nosso Sena.

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Ceci n’est pas une pipe.

Segundo o ARQ!BACANA, foi…

Uma oportunidade única de se aproximar de São Paulo, através de uma experiência absolutamente inovadora e diferente, ao som do sax alto do músico Guilherme Figueiroa, com prosecco no “convés” do Almirante do Lago, em plena calha do Tietê.

Alguém me diz que isso foi proposital, por favor.

Depois de “BR-3″ veio o desfile da Cavaleira na São Paulo Fashion Week e, agora, essa visitinha de membros da classe pensante. Ainda neste mês Eduardo Srur, um artista plástico que sempre surge com intervenções bacanas, vai jogar na água garrafas pet enormes. Tenho a impressão que desde a peça do Vertigem tem havido uma atenção maior ao rio, se é que posso dizer assim. Ou talvez seja apenas uma curiosidade insólita.

Ficou interessado? No site você encontra informações sobre as visitas (Tietê: 50 reais, com direito ao prosecco e ao sax) que vão acontecer ou já aconteceram. Recomendo o passeio pelos Artachos.

It’s alive!

Publicado em aleatório por Elder em Fevereiro, 2008

Filmes-catástrofe sempre são divertidos: ou você fica tenso e ligado ou o filme é tão tosco que se torna engraçado porque também é ridículo. O mesmo se aplica a filmes de monstro, outra categoria de enorme sucesso e da qual faz parte “Cloverfield” – que, na falta de tradução melhor, acabou ganhando o sufixo “Monstro” na versão brasileira.

Nessa produção de J.J. Abrams (“Lost”), um monstro ataca… Nova York e a cidade é destruída. Digo, parece ter sido destruída. Como estamos na era do YouTube, a idéia do roteiro foi mostrar tudo pelas lentes de uma câmera amadora. Ao menos é uma maneira de diminuir os custos do estúdio. Qualquer semelhança com a idéia por trás de “Redacted”, de Brian De Palma, não é coincidência. Mas faça o favor de não imaginar que estou comparando os dois filmes.

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Ah, eu gosto de filmes-catástrofe e filmes de monstro. Aliás, eu gosto de explosões. Daí vem o prazer em assistir aos filmes do James Bond, por exemplo. Esse, pra mim, é o primeiro ponto fraco de “Cloverfield”.

Pelo fato de vermos o mesmo que um personagem, nossa visão não é muito ampla. Além disso, ela é tremida e escura. Faltam explosões, bombas e fogo. Em certo momento os militares são apresentados atacando o monstro, mas o que vemos são apenas os tiros e um pouco de fumaça. Como se não bastasse a falta de explosões, o filme ainda conta com uma história de amor. Esse é o segundo ponto fraco.

Vamos à situação: você está sendo expatriado para ser vice-presidente de algo não identificado. Seus amigos bonitos e bem vestidos fazem uma festa surpresa para se despedir etc. Durante a festa, você briga com seu caso/namorada. Ela sai, você se despede de forma seca e dispensável e um monstro ataca a cidade. Você sente que deve se redimir dos pecados e o mais recente deles é, claro, a briga com o caso/namorada. Acima de tudo e da própria sobrevivência, todos precisam se redimir dos pecados quando um monstro ataca a cidade. A cidade é Nova York, você mora no sul de Manhattan e seu caso/namorada mora em Columbus Circle, perto do Central Park e a uns quatro quilômetros do seu loft. Os militares dizem pra você fugir da ilha, mas você realmente precisa se redimir dos pecados e decide adentrar o inferno godzilliano. Seus amigos qe sobraram querem ir junto, filmando tudo enquanto a bateria infinita durar.

Sobram questões sobre a mente dos personagens.

Quanta bobagem.

144,75 dias

Publicado em aleatório por Elder em Fevereiro, 2008

Usei o Google pra fazer a conta de “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, filme do romeno Cristian Mungiu e vencedor da Palma de Ouro em Cannes. A esta altura do campeonato, todos já sabem do que se trata: é a história de uma jovem que decide fazer aborto – e o título remete ao tempo de gravidez até o dia D.

Isso seria plenamente normal se a jovem estivesse na Romênia atual, onde o aborto é legalizado e praticado em hospitais públicos e particulares por aproximadamente 75% das grávidas. Lembro-me bem de conversar com uma colega romena (sim, acredite) e ouvi-la falar que “se eu ficar grávida, é só abortar”. Um choque pra nós, conservadores religiosos.

Como o filme se passa em 1987, a dois anos do fim da ditadura comunista de Nicolae Ceauşescu, a brincadeira é um pouco diferente. Naquele momento o aborto era proibido, a situação econômica era precária e o país estava atrasado. Não que as coisas tenham mudado muito, tanto que algumas pessoas comentam (desde 2004) que a Romênia entrou “cedo demais” na União Européia…

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Mungiu faz escolhas belas na composição de suas cenas, como o grande momento em que Otilia está sentada à mesa no jantar de aniversário de sua sogra com a cabeça a mil, pensando no que estaria acontecendo com sua amiga grávida Gabita, enquanto os outros convidados soltam suas barbaridades amenas típicas. A câmera geralmente posicionada numa altura baixa, cenas fechadas e a ausência de trilha sonora se somam para tornar abordagem seca e naturalista.

O tratamento duro que o diretor nos dá durante todo o filme é amenizado quando as amigas pagam parte do custo do aborto com sexo e nada é mostrado ou quando surge a cena mais comentada pela imprensa: o feto. Pra mim, toda a força dessa dureza se esvaiu naquele quase-humano de uns 15 centímetros deixado limpo e impecável sobre um pano no chão do banheiro. Não houve sangue, não houve dor. Ou melhor: se houve, fomos poupados.

O diretor, que dependendo do seu ponto de vista poderia parecer estar fazendo um filme anti-aborto ou pró-aborto, nos deixa em dúvida. Para o que ele está tentando abrir nossos olhos mesmo? Gabita, no momento de humor negro, vai para o restaurante do hotel onde o aborto foi feito e come um prato com vários tipos de carne. Não há esperança nessa Romênia.

Império dos Sonhos

Publicado em aleatório por Elder em Janeiro, 2008

Mais de um ano após a estréia de “Império dos Sonhos” nos Estados Unidos, fui hoje ao cinema ver esse que é o mais novo filme de David Lynch e que trata da história de “uma mulher em perigo”. Li muito sobre a produção e fiquei sabendo por antecedência que, se há roteiro, é um fiapinho quase invisível, e que esse é o filme mais estranho já feito pelo diretor. Algo que me marcou nessas leituras foi a primeira frase da crítica de Manohla Dargis no New York Times: “No cinema, há poucos lugares mais medonhos para se estar do que na cabeça de David Lynch.”

É um pesadelo constante, essa cabeça. Fui sendo levado pela história (hein?) criada por ela e, em dado momento, não sabia mais o que era o filme, o que era o filme dentro do filme, o que era pensamento e o que era a realidade. Contei as pessoas que saíram antes do fim e foram umas quinze. Imaginei que mais gente desistiria do estranho laboratório lynchiano.

Foi a prova que as imagens valem mais que as palavras. Um filme sem estrutura narrativa linear e aparentemente sem nexo, onde você nunca sabe o que está olhando, onde existem umas n camadas que se misturam e se tocam ao mesmo tempo que se mantém distantes. De difícil digestão? Caso você tente entender algo de forma padrão, sim. Minha dica é se deixar viajar, ficar sem amarras. Chegue às suas próprias conclusões, que fatalmente serão diferentes das dos seus vizinhos de sala. Veja o filme como uma experiência, o que ele realmente é.

Sem fronteiras

Publicado em aleatório por Elder em Dezembro, 2007

Desde hoje foram eliminados os controles de passaporte na chegada de viajantes vindos de quase toda União Européia para a República Tcheca, Hungria, Estônia, Letônia, Lituânia, Malta, Polônia, Eslováquia e Eslovênia. O que esses novos membros do Acordo de Schengen têm em comum? Com exceção de Malta, são todos ex-repúblicas soviéticas.

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Entre outras coisas, isso significa que esses carimbos na imagem acima não mais existirão numa hipotética viagem entre Alemanha, Hungria e República Tcheca. Na época em que percorri esse caminho, os policiais de fronteira vinham checar o passaporte, mas já não faziam perguntas. Dizem que a entrada desses novos países para o clube é o fim definitivo da Cortina de Ferro, mas acho que ninguém nem se lembrava mais disso. E, claro, há opositores achando que a abertura das fronteiras vai trazer uma leva de imigrantes do Leste pobre para o Oeste rico, como se eles já não estivessem vivendo e trabalhando de Portugal à Áustria. E mais criminalidade. Enquanto isso, o Reino Unido e a Irlanda continuam isolados em suas ilhas.

É interessante pensar também que essa Europa sem fronteiras encontra alguns problemas dentro de seus próprios países. Os movimentos separatistas na Espanha, por exemplo, são inegáveis. A Catalunha é extremamente independente, assim como o País Basco – que chega a dizer que suas relações com Madri são relações de Estado para Estado. Essas duas são as regiões mais avançadas nessa questão, mas outras, como a Galícia, também poderiam se separar numa possível divisão do território espanhol. Não à toa, todos acompanham com extremo interesse as questões fronteiriças na antiga Iugoslávia. “Se o Kosovo pode se separar, por que nós também não?”, poderiam pensar os catalões e bascos. Mas isso é outro assunto…