Dois meses

A pior viagem

Publicado em aleatório por Elder em Julho, 2008

Era um trem da Magyar Államvasutak, ou, como eles chamam, Máv. A linha: Bucureşti Gara de Nord – Praha hlavní nádraží. A viagem toda dura mais de 24 horas, quando sem atrasos, mas a peguei na metade final. Embarquei na estação Budapest Keleti pályaudvar, ou, como eles chamam, Budapest Keleti pu. Era o começo da pior viagem que já fiz na minha vida.

O trem já estava na estrada há 13 horas, sacolejando desde a distante Bucareste, capital romena que fica quase na esquina com a Bulgária. Ao chegar em Budapeste, sentia o calor que emanava das rodas de ferro que já deviam ter rodado milhões de quilômetros por aquelas ferrovias construídas durante o regime soviético. Uma baciada de gente feia descia pelas portas apertadas enquanto observávamos impávidos aquele povo sofrido. Nós, fortes e bem-nutridos, com nossas mochilas pesadas e toda a garra de um passeio absurdo pelos cantos da Europa. Era começo de noite na Hungria e o sol ainda estava longe de se pôr. Seus raios alaranjados passavam pelos vidros e pela grandiosa entrada da estação.

Às 19h17, partimos.

Deixava para trás uma cidade pela qual me apaixonei e o medo começava a tomar conta de mim: serei assaltado? morto? seqüestrado? Às 21h32 chegamos em Győr e deixamos o país da língua do demônio para entrar na Eslováquia. Tempos depois, o trem passou lentamente pelo centro de Bratislava até ficar vinte e quatro minutos parado em Bratislava Hlavna Stanica, a principal estação da capital eslovaca. O relógio batia 23h44 quando voltamos a nos movimentar e eu olhava pela janela as luzes dos outdoors naquele país que não existia 14 anos antes.

Nesses momentos pensava o que meus amigos e minha família estariam fazendo no Brasil, onde ainda não eram 18h. Talvez estivessem no trânsito ou em casa vendo a novela. Eu não. Eu estava num trem na Eslováquia.

Břeclav foi a primeira parada na República Tcheca, à 1h15. Passamos por Brno, a segunda maior cidade do país, às 2h15 e finalmente chegamos a Praga, terra natal de Franz Kafka e da Revolução de Veludo, às 6h14. Foram onze horas no balanço, no desconforto e na sujeira. Isso foi há exatamente um ano.

Sinto saudades.

144,75 dias

Publicado em aleatório por Elder em Fevereiro, 2008

Usei o Google pra fazer a conta de “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, filme do romeno Cristian Mungiu e vencedor da Palma de Ouro em Cannes. A esta altura do campeonato, todos já sabem do que se trata: é a história de uma jovem que decide fazer aborto – e o título remete ao tempo de gravidez até o dia D.

Isso seria plenamente normal se a jovem estivesse na Romênia atual, onde o aborto é legalizado e praticado em hospitais públicos e particulares por aproximadamente 75% das grávidas. Lembro-me bem de conversar com uma colega romena (sim, acredite) e ouvi-la falar que “se eu ficar grávida, é só abortar”. Um choque pra nós, conservadores religiosos.

Como o filme se passa em 1987, a dois anos do fim da ditadura comunista de Nicolae Ceauşescu, a brincadeira é um pouco diferente. Naquele momento o aborto era proibido, a situação econômica era precária e o país estava atrasado. Não que as coisas tenham mudado muito, tanto que algumas pessoas comentam (desde 2004) que a Romênia entrou “cedo demais” na União Européia…

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Mungiu faz escolhas belas na composição de suas cenas, como o grande momento em que Otilia está sentada à mesa no jantar de aniversário de sua sogra com a cabeça a mil, pensando no que estaria acontecendo com sua amiga grávida Gabita, enquanto os outros convidados soltam suas barbaridades amenas típicas. A câmera geralmente posicionada numa altura baixa, cenas fechadas e a ausência de trilha sonora se somam para tornar abordagem seca e naturalista.

O tratamento duro que o diretor nos dá durante todo o filme é amenizado quando as amigas pagam parte do custo do aborto com sexo e nada é mostrado ou quando surge a cena mais comentada pela imprensa: o feto. Pra mim, toda a força dessa dureza se esvaiu naquele quase-humano de uns 15 centímetros deixado limpo e impecável sobre um pano no chão do banheiro. Não houve sangue, não houve dor. Ou melhor: se houve, fomos poupados.

O diretor, que dependendo do seu ponto de vista poderia parecer estar fazendo um filme anti-aborto ou pró-aborto, nos deixa em dúvida. Para o que ele está tentando abrir nossos olhos mesmo? Gabita, no momento de humor negro, vai para o restaurante do hotel onde o aborto foi feito e come um prato com vários tipos de carne. Não há esperança nessa Romênia.

Sem fronteiras

Publicado em aleatório por Elder em Dezembro, 2007

Desde hoje foram eliminados os controles de passaporte na chegada de viajantes vindos de quase toda União Européia para a República Tcheca, Hungria, Estônia, Letônia, Lituânia, Malta, Polônia, Eslováquia e Eslovênia. O que esses novos membros do Acordo de Schengen têm em comum? Com exceção de Malta, são todos ex-repúblicas soviéticas.

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Entre outras coisas, isso significa que esses carimbos na imagem acima não mais existirão numa hipotética viagem entre Alemanha, Hungria e República Tcheca. Na época em que percorri esse caminho, os policiais de fronteira vinham checar o passaporte, mas já não faziam perguntas. Dizem que a entrada desses novos países para o clube é o fim definitivo da Cortina de Ferro, mas acho que ninguém nem se lembrava mais disso. E, claro, há opositores achando que a abertura das fronteiras vai trazer uma leva de imigrantes do Leste pobre para o Oeste rico, como se eles já não estivessem vivendo e trabalhando de Portugal à Áustria. E mais criminalidade. Enquanto isso, o Reino Unido e a Irlanda continuam isolados em suas ilhas.

É interessante pensar também que essa Europa sem fronteiras encontra alguns problemas dentro de seus próprios países. Os movimentos separatistas na Espanha, por exemplo, são inegáveis. A Catalunha é extremamente independente, assim como o País Basco – que chega a dizer que suas relações com Madri são relações de Estado para Estado. Essas duas são as regiões mais avançadas nessa questão, mas outras, como a Galícia, também poderiam se separar numa possível divisão do território espanhol. Não à toa, todos acompanham com extremo interesse as questões fronteiriças na antiga Iugoslávia. “Se o Kosovo pode se separar, por que nós também não?”, poderiam pensar os catalões e bascos. Mas isso é outro assunto…