Cegueira
Simples assim: eu achei que deveria falar de “Ensaio sobre a Cegueira“, novo filme do Fernando Meirelles. Com roteiro baseado no livro homônimo do José Saramago, português ganhador do Nobel, eu decidi que seria algo infilmável. Mas veja bem, eu li o livro em 2004. Me lembrei que ao lê-lo, imaginava milhões de cenas na minha mente criativa. Por que não seria possível transpô-las para a tela?
Ora, nossa cabeça consegue manter dezenas de linhas de pensamento ao mesmo tempo. Você pode até não se dar conta disso, mas há muitas camadas de pensamentos na sua mente neste exato instante. Assim fica razoavelmente fácil conseguir imaginar qualquer coisa, inclusive um livro um pouco mais complexo como esse.
Complexo pois trata de uma coisa difícil de ser transformada em imagens. A cegueira, por sua própria característica, não é passível de maiores explicações. Uma cegueira branca, então, fica pior. Você imagina como deve ser, mas ver isso no cinema é difícil.
Exposto isso, aviso que esperava com ansiedade. Queria ver o resultado da produção, acompanhava o blog, lia as notícias. A ansiedade aumentou mais ao ver o teaser e o trailer.
E o filme?
Será sempre um prazer ver São Paulo sendo retratada sem ser na novela ou nas câmeras quase-VHS dos filmes brasileiros. Os primeiros segundos foram diferentes. Faria Lima com Juscelino, carros tipicamente brasileiros e atores falando inglês? Depois veio aquela sucessão de coisas que são estranhas pra quem mora na cidade: do Itaim para Higienópolis em duas cenas, dali para algum lugar do outro lado do rio, então para os Jardins e, finalmente, para o que parece ser Pinheiros. Pontes Eusébio Matoso e Bernardo Goldfarb tiveram seus momentos de fama – assim como sua prima rica, a Octávio Frias de Oliveira.
Achei que a fotografia tornou-se inconveniente. No começo era bacana ver a brincadeira “cegueira branca/tons brancos” mas depois encheu. Junto com os reflexos. Mas isso não é o mais importante.
Não houve maior desenvolvimento dos personagens. Do pouco que me lembro do livro, nele também não havia muitas delongas na história, mas isso se potencializou quando transformado em filme. O mesmo aconteceu com as cenas. Edição muito rápida, não deu pra parar e pensar no que estava vendo. A hora e meia que se passa dentro da quarentena trouxe muita informação e pouco tempo hábil para processamento.
Não vou reclamar do suposto esmaecimento das cenas nojentas ou violentas. Meirelles manteve, por exemplo, a cena que mais me marcou no quesito “nojeiras” enquanto eu lia o texto. E convenhamos que também não há muito como tornar mais ou menos violenta uma cena de estupro, que foi a mais comentada enquanto se produzia o filme. Qual teria sido a primeira versão, que foi cortada após senhorinhas terem saído da sala de exibição numa sessão piloto? Sexo explícito? Não era a isso que o filme se propunha e, se for assim, ok.
E um narrador não era necessário. Ele se dá ao luxo de explicar o que está acontecendo no final da história. Por quê? Por quê?
Regular.
Cinema político, essas coisas
Revi nesta semana “Persépolis”, a animação-diário de Marjane Satrapi sobre sua infância e adolescência num Irã em ebulição política e social. Alguns filmes ficam melhores na segunda vez, mas definitivamente não foi o caso aqui. Lembro-me de ter saído daquela seção na Mostra um tanto maravilhado… Bobagem. Eu estava bem ansioso para vê-lo e isso talvez tenha ocupado minha mente durante a projeção. O fato é que o filme não é tão bom assim, mas vale o ingresso.
Hoje vi “O Banheiro do Papa”. Esse ficou pra trás na Mostra e, bom, eu diria que é peculiar. Devido à visita de João Paulo II, um furor capitalista toma conta da pequena, pobre e precária Melo, no Uruguai. Moral da história: Deus castiga os que visam o lucro. Mesmo porque enriquecer é pecado, segundo a nova lista divulgada pelo Vaticano. Uma pena, mas vou pro inferno.
Conexões
“Onde os Fracos Não Têm Vez” é um dos poucos títulos que, traduzidos, são tão bons quanto os originais. No caso, “No Country For Old Men”. Tanto um quanto o outro faz sentido e pode ser alvo de discussões infinitas. Ótimo Oscar para os irmãos Coen. E Daniel Day-Lewis em “Sangue Negro”? Inexplicável. Assim como a trilha sonora e o próprio filme do Paul Thomas Anderson, queridinhos dos descolados desde, pelo menos, “Magnólia”.
Quem ganhou Oscar também foi “Juno”, levando o prêmio de melhor roteiro para o texto de Brook Busey, mais conhecida por seu nome de guerra “Diablo Cody”. Não sei, mas ninguém tira da minha cabeça que ela é uma espécie de Fernanda Young born in Chicago. O verbete sobre a escritora brasileira na Wikipédia começa de maneira sensacional.
“Sua formação literária foi em parte constituída durante a travessia da Baía de Guanabara em barcas ou ônibus. Dedicou-se aos livros na busca de aperfeiçoamento, influências e distração. Autores como Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald, Shakespeare, Gerard de Nerval, Thomas Mann, Balzac, Oscar Wilde, Malcolm Lowry, William Faulkner, Milan Kundera, V.S. Naipaul, Truman Capote, J.D. Salinger, Jorge Luis Borges, Cabreira Infante, José Saramago, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Machado de Assis, Márcia Denser, T.S. Eliot, Paul Éluard, Charles Baudelaire, Fernando Pessoa e Sylvia Plath misturam-se, com naturalidade, a Harold Robbins, Sidney Sheldon, Cassandra Rios e V.C. Andrews. A filosofia também sempre foi seu interesse e, dentre seus favoritos estão Schopenhauer, Nietzsche e Cioran.”
Acho bacana como ela conseguiu ler tanta coisa numa balsa sem ao menos enjoar. Sem trocadilhos. Outro grande personagem da brasilidade que surgiu na balsa Rio – Niterói foi Senor Abravanel. Assim, fecha-se a trinca Diablo Cody – Fernanda Young – Sílvio Santos.

E “Juno”, dizem, é o “Little Miss Sunshine” deste ano. Ou “Sideways”. Enquanto o primeiro fala sobre uma garotinha em busca da felicidade, o segundo fala de um homem quase senil em busca da felicidade. Grosso modo, a recente produção fala de uma jovem em busca da felicidade. Pronto. Encontramos as conexões entre as três fitas indie.
Como é um filme pop alternativo, conta com um desfile de personagens freak, desde a Juno do título com seu namorado meio andrógino / meio tímido, até a madrasta que gosta de cachorros e o yuppie legal que toca guitarra. Fofura elevada à n-ésima potência, não? Claro, a trilha sonora também é um destaque positivo. Ela vem com “Sea of Love”, versão da Cat Power pra uma música de Phil Phillips e George Khoury, o que me faz mudar de assunto no próximo parágrafo.
Eu adoro a Cat Power. Digo, a Chan Marshall. Bonita, problemática e com uma voz rouca, poderia muito bem ser um personagem almodóvariano, mas não. Ela decidiu, drogar-se, beber, cantar e ganhar dinheiro com isso. Seu último CD, “Jukebox”, é o segundo de covers em sua carreira – “Sea of Love”, remake da música de 1959 e trilha de Juno, está em “The Covers Record”. Mas não são simples regravações de sucessos de outras bandas. Marshall destrói e reconstrói as músicas de forma a torná-las quase irreconhecíveis. “New York, New York”, o tema de Frank Sinatra para o filme homônimo, é uma coisa, assim, divertida.
Cinco filmes
Pra continuar a série sobre cinema, mais cinco filmes que vi.
“Medos Privados em Lugares Públicos”, de Alain Resnais, é uma espécie de “Closer” dans Paris e… Espera. Acabei de ler o seguinte na Contracampo:
Existe a tentação, é comum até, de só se olhar para o enredo e menos para o enfoque, e assim considerar o filme como uma espécie de Closer acrescido de mais dois personagens, incrivelmente melhor atuado, mais elegante (também, não era difícil) e com personagens em idade mais velha.
Saco. Se caí nessa tentação, não posso mais falar sobre esse filme. Leia os comentários daquela revista e ignore os meus. Não tenho mais moral para falar dos outros, mas vou dizer rapidamente o que achei de cada um.
“Mutum”, de Sandra Kogut, é bom.
“Meu Nome Não é Johnny”, de Mauro Lima, é bom.
“Em Paris”, de Christophe Honoré, é bom.
“Xuxa em Sonho de Menina”, de Rudi Lagemann, eu não vi.
Livro Legal
Tudo bem que não tenho visto TV, mas o Gugu falando de livros em seu programa “Domingo Legal” é uma novidade incrível para mim. O quadro é criativamente chamado de “Livro Legal” e hoje Augusto Liberato mostrava as maravilhas de “Cinco Minutos”, obra de José de Alencar escrita em 1856. Favor não confundir com “Onze Minutos“, cria do mago Paolo Coniglio feita em 2003.
Enquanto as benesses da leitura eram divulgadas ao grande público, cópias do livro pocket editado pela L&PM eram distribuídas entre as colegas de auditório, que não demonstravam tanto entusiasmo ao serem presenteadas com o texto do mesmo autor de “O Guarani” — este sim, clássico da Fuvest.
Sinto que alguém se inspirou na apresentadora de TV mais bem sucedida do mundo, Oprah Winfrey. Ela mantém desde 1996 seu Oprah’s Book Club com imenso sucesso de público e crítica. Apenas em 2002 houve uma pausa nas dicas, quando ela alegou não estar com tempo para ler muito e, portanto, não podendo indicar boas opções para seus espectadores. “It has become harder and harder to find books on a monthly basis that I feel absolutely compelled to share”, declarou a moça. Por enquanto, Gugu não tem o mesmo poder de persuasão da apresentadora, que acabou por cunhar o “efeito Oprah” graças à sua capacidade de elevar títulos obscuros ao panteão dos bestsellers.
Você não ouviu o que Gugu disse, mas acredita no bom-gosto dele e quer ler o livro comentado neste domingo? Pode comprar a versão da Martin Claret, que vem com “Iracema”, por dez reais. No site da Oprah (que é uma grande comunidade virtual, como dita a moda) há fóruns de discussão sobre os títulos indicados. Espero que façam o mesmo aqui e espero também o dia em que ele falará sobre “Ana Karenina“, de Tolstói, como fez sua colega americana.
Até o dia em que o cão morreu
Publicado em 2003 pela Livros do Mal, encontrar uma cópia de “Até o dia em que o cão morreu” em 2006 era uma tarefa difícil. Cheguei a mandar um email pro Daniel Galera, o autor, perguntando sobre isso e ele me respondeu que havia umas duas disponíveis aqui em São Paulo. Acabei não indo atrás, fui viajar e, quando voltei, o livro tinha sido publicado novamente (dessa vez pela Companhia das Letras) e já tinha até virado filme (“Cão sem dono“, de Beto Brant). Comprei nesta semana.
Li as noventa e nove páginas em pouquíssimas horas. O mesmo tinha acontecido quando comprei “Mãos de cavalo”, livro mais recente do Galera. É algo mais forte que eu: você senta, começa a ler e, quando vê, já acabou. Bom, “Até o dia…” é mais fraco que o “Mãos de cavalo”, mas eu já esperava isso pois o normal é que se evolua com o tempo. O primeiro livro dele, “Dentes guardados“, é uma coletânea de contos, alguns bons e outros ruins. Enfim.
Uma crítica que foi bastante feita ao livro é que nele não acontece nada. Realmente, mas também não sei até que ponto isso é uma coisa ruim pois há muitos livros e filmes onde não acontece nada. O narrador é um cara com quem é fácil se identificar: jovem, recém-formado, desempregado, acabou de sair da casa dos pais, precisa de dinheiro, não tem namorada mas vem pegando o que surge, questiona sua vida etc. O mais próximo de companheiro na existência desse personagem é o cão que ele encontra na rua e passa a viver com ele. Eu diria que mais que isso, o cão também é uma imagem daquilo que o narrador queria ser. Ele é independente e sozinho, sai pra rua pra brigar com os outros cachorros e pra procurar fêmeas desprotegidas mas, acima de tudo, é leal e, por que não?, compreensivo.
Pra mim, é como se o narrador dissesse “vejam! eu sou sozinho, mas também sou amável. eu faço de conta que não preciso de ninguém, mas queria ter alguém ao meu lado”. Esse alguém é Marcela, a modelo que surge de forma bizarra na vida do narrador. Um tanto fútil, seus sonhos giram em torno da carreira e do dinheiro. Ela quer viajar, ter casas, curtir as coisas boas da vida. De certa maneira, ela também é independente mas precisa de alguém para, principalmente, criticá-la. As críticas vêm do narrador e também de problemas que surgem na vida dela.
O livro é cheio de algumas coisas que não me agradaram, alguns vícios e coisas assim. Tem até um ensaio de lição de moral. No entanto, é difícil dizer que não gostei ou que é ruim, mesmo porque eu não sou crítico e nem nunca escrevi história nenhuma. Diferentemente de “Mãos de cavalo”, aqui a gente já tem um personagem pronto, então a identificação que surge do fato de acompanharmos a formação do personagem não existe, mas, como falei ali em cima, ainda é possível se identificar com o estereótipo do jovem urbano etc., etc. (ah, esses malditos lugares comuns do tipo “romance de formação”….) Foi uma boa experiência.






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