Dois meses

Cinema político, essas coisas

Publicado em Sem categoria por Elder em Março, 2008

Revi nesta semana “Persépolis”, a animação-diário de Marjane Satrapi sobre sua infância e adolescência num Irã em ebulição política e social. Alguns filmes ficam melhores na segunda vez, mas definitivamente não foi o caso aqui. Lembro-me de ter saído daquela seção na Mostra um tanto maravilhado… Bobagem. Eu estava bem ansioso para vê-lo e isso talvez tenha ocupado minha mente durante a projeção. O fato é que o filme não é tão bom assim, mas vale o ingresso.

Hoje vi “O Banheiro do Papa”. Esse ficou pra trás na Mostra e, bom, eu diria que é peculiar. Devido à visita de João Paulo II, um furor capitalista toma conta da pequena, pobre e precária Melo, no Uruguai. Moral da história: Deus castiga os que visam o lucro. Mesmo porque enriquecer é pecado, segundo a nova lista divulgada pelo Vaticano. Uma pena, mas vou pro inferno.

144,75 dias

Publicado em aleatório por Elder em Fevereiro, 2008

Usei o Google pra fazer a conta de “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, filme do romeno Cristian Mungiu e vencedor da Palma de Ouro em Cannes. A esta altura do campeonato, todos já sabem do que se trata: é a história de uma jovem que decide fazer aborto – e o título remete ao tempo de gravidez até o dia D.

Isso seria plenamente normal se a jovem estivesse na Romênia atual, onde o aborto é legalizado e praticado em hospitais públicos e particulares por aproximadamente 75% das grávidas. Lembro-me bem de conversar com uma colega romena (sim, acredite) e ouvi-la falar que “se eu ficar grávida, é só abortar”. Um choque pra nós, conservadores religiosos.

Como o filme se passa em 1987, a dois anos do fim da ditadura comunista de Nicolae Ceauşescu, a brincadeira é um pouco diferente. Naquele momento o aborto era proibido, a situação econômica era precária e o país estava atrasado. Não que as coisas tenham mudado muito, tanto que algumas pessoas comentam (desde 2004) que a Romênia entrou “cedo demais” na União Européia…

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Mungiu faz escolhas belas na composição de suas cenas, como o grande momento em que Otilia está sentada à mesa no jantar de aniversário de sua sogra com a cabeça a mil, pensando no que estaria acontecendo com sua amiga grávida Gabita, enquanto os outros convidados soltam suas barbaridades amenas típicas. A câmera geralmente posicionada numa altura baixa, cenas fechadas e a ausência de trilha sonora se somam para tornar abordagem seca e naturalista.

O tratamento duro que o diretor nos dá durante todo o filme é amenizado quando as amigas pagam parte do custo do aborto com sexo e nada é mostrado ou quando surge a cena mais comentada pela imprensa: o feto. Pra mim, toda a força dessa dureza se esvaiu naquele quase-humano de uns 15 centímetros deixado limpo e impecável sobre um pano no chão do banheiro. Não houve sangue, não houve dor. Ou melhor: se houve, fomos poupados.

O diretor, que dependendo do seu ponto de vista poderia parecer estar fazendo um filme anti-aborto ou pró-aborto, nos deixa em dúvida. Para o que ele está tentando abrir nossos olhos mesmo? Gabita, no momento de humor negro, vai para o restaurante do hotel onde o aborto foi feito e come um prato com vários tipos de carne. Não há esperança nessa Romênia.

Papai Noel existe mesmo e mora lá… na Espanha

Publicado em aleatório por Elder em Novembro, 2007

O bom velhinho chegou no dia 17 de novembro. A viagem da Espanha até a Holanda foi tranqüila, mas o navio teve alguns problemas quando se aproximava da costa batava, o que causou certa comoção na população presente para recepcioná-lo. No fim, tudo deu certo e São Nicolau desembarcou junto com seus ajudantes.

As crianças ficaram preocupadas quando o viram cair do cavalo (sem trocadilhos, gente), mas se tranqüilizaram pois um Pedro Preto rapidamente o ajudou a se levantar. Pedro Preto?

Pros moradores da Holanda e de Flandres, Sinterklaas mora longe, num país exótico, junto de seu ajudante, o Zwarte Piet. O Pedro faz o trabalho sujo: traz o saco com os brinquedos e doces que distribui descendo pelas chaminés.

Os pequenos deixam o sapato à beira da lareira e dão cenoura e feno para o cavalo de São Nicolau, sempre na expectativa de um presente bom e, claro, de não serem levados embora. Pedro e Nicolau têm um caderninho onde marcam tudo que as crianças fizeram de errado e podem dar surra de vara nelas.

Na pior das hipóteses, as seqüestram, numa espécie de homem do saco neerlandês. Sim, porque as crianças que se comportaram mal durante o ano são levadas embora para a Espanha no saco do Pedro Preto. Nada mais assustador, não é mesmo? Gosto muito das antigas tradições européias.