Dois meses

Cegueira

Publicado em aleatório por Elder em Setembro, 2008

Simples assim: eu achei que deveria falar de “Ensaio sobre a Cegueira“, novo filme do Fernando Meirelles. Com roteiro baseado no livro homônimo do José Saramago, português ganhador do Nobel, eu decidi que seria algo infilmável. Mas veja bem, eu li o livro em 2004. Me lembrei que ao lê-lo, imaginava milhões de cenas na minha mente criativa. Por que não seria possível transpô-las para a tela?

Morumbi - Brooklin way of life

Ora, nossa cabeça consegue manter dezenas de linhas de pensamento ao mesmo tempo. Você pode até não se dar conta disso, mas há muitas camadas de pensamentos na sua mente neste exato instante. Assim fica razoavelmente fácil conseguir imaginar qualquer coisa, inclusive um livro um pouco mais complexo como esse.

Complexo pois trata de uma coisa difícil de ser transformada em imagens. A cegueira, por sua própria característica, não é passível de maiores explicações. Uma cegueira branca, então, fica pior. Você imagina como deve ser, mas ver isso no cinema é difícil.

Exposto isso, aviso que esperava com ansiedade. Queria ver o resultado da produção, acompanhava o blog, lia as notícias. A ansiedade aumentou mais ao ver o teaser e o trailer.

E o filme?

Será sempre um prazer ver São Paulo sendo retratada sem ser na novela ou nas câmeras quase-VHS dos filmes brasileiros. Os primeiros segundos foram diferentes. Faria Lima com Juscelino, carros tipicamente brasileiros e atores falando inglês? Depois veio aquela sucessão de coisas que são estranhas pra quem mora na cidade: do Itaim para Higienópolis em duas cenas, dali para algum lugar do outro lado do rio, então para os Jardins e, finalmente, para o que parece ser Pinheiros. Pontes Eusébio Matoso e Bernardo Goldfarb tiveram seus momentos de fama – assim como sua prima rica, a Octávio Frias de Oliveira.

Achei que a fotografia tornou-se inconveniente. No começo era bacana ver a brincadeira “cegueira branca/tons brancos” mas depois encheu. Junto com os reflexos. Mas isso não é o mais importante.

O Minhocao fica assim aos domingos

O Minhocão fica assim aos domingos

Não houve maior desenvolvimento dos personagens. Do pouco que me lembro do livro, nele também não havia muitas delongas na história, mas isso se potencializou quando transformado em filme. O mesmo aconteceu com as cenas. Edição muito rápida, não deu pra parar e pensar no que estava vendo. A hora e meia que se passa dentro da quarentena trouxe muita informação e pouco tempo hábil para processamento.

Não vou reclamar do suposto esmaecimento das cenas nojentas ou violentas. Meirelles manteve, por exemplo, a cena que mais me marcou no quesito “nojeiras” enquanto eu lia o texto. E convenhamos que também não há muito como tornar mais ou menos violenta uma cena de estupro, que foi a mais comentada enquanto se produzia o filme. Qual teria sido a primeira versão, que foi cortada após senhorinhas terem saído da sala de exibição numa sessão piloto? Sexo explícito? Não era a isso que o filme se propunha e, se for assim, ok.

E um narrador não era necessário. Ele se dá ao luxo de explicar o que está acontecendo no final da história. Por quê? Por quê?

Regular.

On a rooftop in… São Paulo

Publicado em Sem categoria por Elder em Março, 2008

“Aqui é mais alto que o Skye”, disse a jovem bem vestida assim que saiu no heliponto do edifício New England, em Higienópolis. O céu nublado daquela noite de outono emoldurava as luzes do Pacaembú e região, sendo que dava para ver até pra lá da Marginal Tietê. Fosse de dia, seria possível encontrar vários pontos conhecidos.

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Na sexta-feira chegou o email me convidando: “tenho convites para o Johnnie Walker Black Label Unseen New York”. Hein? A marca de bebidas está proporcionando uma série de “experiências únicas” em algumas cidades do mundo e São Paulo é uma delas. No mês passado houve um blind dinner (como se chamam essas coisas?) e, agora, um filme no alto de um prédio. A idéia é se sentir em Nova York.

Nos aproximamos um pouco da cidade americana devido ao vento, ao frio e à garoa que nos presentearam com esse clima “escocês”, segundo o embaixador do Johnnie Walker que estava entre nós, falando com seu sotaque carregado e seu kilt. Houve farta distribuição de água, refrigerante, uísque e petiscos. A distribuição de cobertores, no entanto, não foi tão farta. “Vai ser ótimo pra pegar uma pneumonia”, disse alguém.

O filme? Bem, “Encurralados”, com Pierce Brosnan, não é recomendável.

Cinema político, essas coisas

Publicado em Sem categoria por Elder em Março, 2008

Revi nesta semana “Persépolis”, a animação-diário de Marjane Satrapi sobre sua infância e adolescência num Irã em ebulição política e social. Alguns filmes ficam melhores na segunda vez, mas definitivamente não foi o caso aqui. Lembro-me de ter saído daquela seção na Mostra um tanto maravilhado… Bobagem. Eu estava bem ansioso para vê-lo e isso talvez tenha ocupado minha mente durante a projeção. O fato é que o filme não é tão bom assim, mas vale o ingresso.

Hoje vi “O Banheiro do Papa”. Esse ficou pra trás na Mostra e, bom, eu diria que é peculiar. Devido à visita de João Paulo II, um furor capitalista toma conta da pequena, pobre e precária Melo, no Uruguai. Moral da história: Deus castiga os que visam o lucro. Mesmo porque enriquecer é pecado, segundo a nova lista divulgada pelo Vaticano. Uma pena, mas vou pro inferno.

Conexões

Publicado em aleatório por Elder em Março, 2008

“Onde os Fracos Não Têm Vez” é um dos poucos títulos que, traduzidos, são tão bons quanto os originais. No caso, “No Country For Old Men”. Tanto um quanto o outro faz sentido e pode ser alvo de discussões infinitas. Ótimo Oscar para os irmãos Coen. E Daniel Day-Lewis em “Sangue Negro”? Inexplicável. Assim como a trilha sonora e o próprio filme do Paul Thomas Anderson, queridinhos dos descolados desde, pelo menos, “Magnólia”.

Quem ganhou Oscar também foi “Juno”, levando o prêmio de melhor roteiro para o texto de Brook Busey, mais conhecida por seu nome de guerra “Diablo Cody”. Não sei, mas ninguém tira da minha cabeça que ela é uma espécie de Fernanda Young born in Chicago. O verbete sobre a escritora brasileira na Wikipédia começa de maneira sensacional.

“Sua formação literária foi em parte constituída durante a travessia da Baía de Guanabara em barcas ou ônibus. Dedicou-se aos livros na busca de aperfeiçoamento, influências e distração. Autores como Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald, Shakespeare, Gerard de Nerval, Thomas Mann, Balzac, Oscar Wilde, Malcolm Lowry, William Faulkner, Milan Kundera, V.S. Naipaul, Truman Capote, J.D. Salinger, Jorge Luis Borges, Cabreira Infante, José Saramago, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Machado de Assis, Márcia Denser, T.S. Eliot, Paul Éluard, Charles Baudelaire, Fernando Pessoa e Sylvia Plath misturam-se, com naturalidade, a Harold Robbins, Sidney Sheldon, Cassandra Rios e V.C. Andrews. A filosofia também sempre foi seu interesse e, dentre seus favoritos estão Schopenhauer, Nietzsche e Cioran.”

Acho bacana como ela conseguiu ler tanta coisa numa balsa sem ao menos enjoar. Sem trocadilhos. Outro grande personagem da brasilidade que surgiu na balsa Rio – Niterói foi Senor Abravanel. Assim, fecha-se a trinca Diablo Cody – Fernanda Young – Sílvio Santos.

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E “Juno”, dizem, é o “Little Miss Sunshine” deste ano. Ou “Sideways”. Enquanto o primeiro fala sobre uma garotinha em busca da felicidade, o segundo fala de um homem quase senil em busca da felicidade. Grosso modo, a recente produção fala de uma jovem em busca da felicidade. Pronto. Encontramos as conexões entre as três fitas indie.

Como é um filme pop alternativo, conta com um desfile de personagens freak, desde a Juno do título com seu namorado meio andrógino / meio tímido, até a madrasta que gosta de cachorros e o yuppie legal que toca guitarra. Fofura elevada à n-ésima potência, não? Claro, a trilha sonora também é um destaque positivo. Ela vem com “Sea of Love”, versão da Cat Power pra uma música de Phil Phillips e George Khoury, o que me faz mudar de assunto no próximo parágrafo.

Eu adoro a Cat Power. Digo, a Chan Marshall. Bonita, problemática e com uma voz rouca, poderia muito bem ser um personagem almodóvariano, mas não. Ela decidiu, drogar-se, beber, cantar e ganhar dinheiro com isso. Seu último CD, “Jukebox”, é o segundo de covers em sua carreira – “Sea of Love”, remake da música de 1959 e trilha de Juno, está em “The Covers Record”. Mas não são simples regravações de sucessos de outras bandas. Marshall destrói e reconstrói as músicas de forma a torná-las quase irreconhecíveis. “New York, New York”, o tema de Frank Sinatra para o filme homônimo, é uma coisa, assim, divertida.

It’s alive!

Publicado em aleatório por Elder em Fevereiro, 2008

Filmes-catástrofe sempre são divertidos: ou você fica tenso e ligado ou o filme é tão tosco que se torna engraçado porque também é ridículo. O mesmo se aplica a filmes de monstro, outra categoria de enorme sucesso e da qual faz parte “Cloverfield” – que, na falta de tradução melhor, acabou ganhando o sufixo “Monstro” na versão brasileira.

Nessa produção de J.J. Abrams (“Lost”), um monstro ataca… Nova York e a cidade é destruída. Digo, parece ter sido destruída. Como estamos na era do YouTube, a idéia do roteiro foi mostrar tudo pelas lentes de uma câmera amadora. Ao menos é uma maneira de diminuir os custos do estúdio. Qualquer semelhança com a idéia por trás de “Redacted”, de Brian De Palma, não é coincidência. Mas faça o favor de não imaginar que estou comparando os dois filmes.

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Ah, eu gosto de filmes-catástrofe e filmes de monstro. Aliás, eu gosto de explosões. Daí vem o prazer em assistir aos filmes do James Bond, por exemplo. Esse, pra mim, é o primeiro ponto fraco de “Cloverfield”.

Pelo fato de vermos o mesmo que um personagem, nossa visão não é muito ampla. Além disso, ela é tremida e escura. Faltam explosões, bombas e fogo. Em certo momento os militares são apresentados atacando o monstro, mas o que vemos são apenas os tiros e um pouco de fumaça. Como se não bastasse a falta de explosões, o filme ainda conta com uma história de amor. Esse é o segundo ponto fraco.

Vamos à situação: você está sendo expatriado para ser vice-presidente de algo não identificado. Seus amigos bonitos e bem vestidos fazem uma festa surpresa para se despedir etc. Durante a festa, você briga com seu caso/namorada. Ela sai, você se despede de forma seca e dispensável e um monstro ataca a cidade. Você sente que deve se redimir dos pecados e o mais recente deles é, claro, a briga com o caso/namorada. Acima de tudo e da própria sobrevivência, todos precisam se redimir dos pecados quando um monstro ataca a cidade. A cidade é Nova York, você mora no sul de Manhattan e seu caso/namorada mora em Columbus Circle, perto do Central Park e a uns quatro quilômetros do seu loft. Os militares dizem pra você fugir da ilha, mas você realmente precisa se redimir dos pecados e decide adentrar o inferno godzilliano. Seus amigos qe sobraram querem ir junto, filmando tudo enquanto a bateria infinita durar.

Sobram questões sobre a mente dos personagens.

Quanta bobagem.

144,75 dias

Publicado em aleatório por Elder em Fevereiro, 2008

Usei o Google pra fazer a conta de “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, filme do romeno Cristian Mungiu e vencedor da Palma de Ouro em Cannes. A esta altura do campeonato, todos já sabem do que se trata: é a história de uma jovem que decide fazer aborto – e o título remete ao tempo de gravidez até o dia D.

Isso seria plenamente normal se a jovem estivesse na Romênia atual, onde o aborto é legalizado e praticado em hospitais públicos e particulares por aproximadamente 75% das grávidas. Lembro-me bem de conversar com uma colega romena (sim, acredite) e ouvi-la falar que “se eu ficar grávida, é só abortar”. Um choque pra nós, conservadores religiosos.

Como o filme se passa em 1987, a dois anos do fim da ditadura comunista de Nicolae Ceauşescu, a brincadeira é um pouco diferente. Naquele momento o aborto era proibido, a situação econômica era precária e o país estava atrasado. Não que as coisas tenham mudado muito, tanto que algumas pessoas comentam (desde 2004) que a Romênia entrou “cedo demais” na União Européia…

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Mungiu faz escolhas belas na composição de suas cenas, como o grande momento em que Otilia está sentada à mesa no jantar de aniversário de sua sogra com a cabeça a mil, pensando no que estaria acontecendo com sua amiga grávida Gabita, enquanto os outros convidados soltam suas barbaridades amenas típicas. A câmera geralmente posicionada numa altura baixa, cenas fechadas e a ausência de trilha sonora se somam para tornar abordagem seca e naturalista.

O tratamento duro que o diretor nos dá durante todo o filme é amenizado quando as amigas pagam parte do custo do aborto com sexo e nada é mostrado ou quando surge a cena mais comentada pela imprensa: o feto. Pra mim, toda a força dessa dureza se esvaiu naquele quase-humano de uns 15 centímetros deixado limpo e impecável sobre um pano no chão do banheiro. Não houve sangue, não houve dor. Ou melhor: se houve, fomos poupados.

O diretor, que dependendo do seu ponto de vista poderia parecer estar fazendo um filme anti-aborto ou pró-aborto, nos deixa em dúvida. Para o que ele está tentando abrir nossos olhos mesmo? Gabita, no momento de humor negro, vai para o restaurante do hotel onde o aborto foi feito e come um prato com vários tipos de carne. Não há esperança nessa Romênia.

Cinco filmes

Publicado em Sem categoria por Elder em Janeiro, 2008

Pra continuar a série sobre cinema, mais cinco filmes que vi.

“Medos Privados em Lugares Públicos”, de Alain Resnais, é uma espécie de “Closer” dans Paris e… Espera. Acabei de ler o seguinte na Contracampo:

Existe a tentação, é comum até, de só se olhar para o enredo e menos para o enfoque, e assim considerar o filme como uma espécie de Closer acrescido de mais dois personagens, incrivelmente melhor atuado, mais elegante (também, não era difícil) e com personagens em idade mais velha.

Saco. Se caí nessa tentação, não posso mais falar sobre esse filme. Leia os comentários daquela revista e ignore os meus. Não tenho mais moral para falar dos outros, mas vou dizer rapidamente o que achei de cada um.

“Mutum”, de Sandra Kogut, é bom.

“Meu Nome Não é Johnny”, de Mauro Lima, é bom.

“Em Paris”, de Christophe Honoré, é bom.

“Xuxa em Sonho de Menina”, de Rudi Lagemann, eu não vi.

Império dos Sonhos

Publicado em aleatório por Elder em Janeiro, 2008

Mais de um ano após a estréia de “Império dos Sonhos” nos Estados Unidos, fui hoje ao cinema ver esse que é o mais novo filme de David Lynch e que trata da história de “uma mulher em perigo”. Li muito sobre a produção e fiquei sabendo por antecedência que, se há roteiro, é um fiapinho quase invisível, e que esse é o filme mais estranho já feito pelo diretor. Algo que me marcou nessas leituras foi a primeira frase da crítica de Manohla Dargis no New York Times: “No cinema, há poucos lugares mais medonhos para se estar do que na cabeça de David Lynch.”

É um pesadelo constante, essa cabeça. Fui sendo levado pela história (hein?) criada por ela e, em dado momento, não sabia mais o que era o filme, o que era o filme dentro do filme, o que era pensamento e o que era a realidade. Contei as pessoas que saíram antes do fim e foram umas quinze. Imaginei que mais gente desistiria do estranho laboratório lynchiano.

Foi a prova que as imagens valem mais que as palavras. Um filme sem estrutura narrativa linear e aparentemente sem nexo, onde você nunca sabe o que está olhando, onde existem umas n camadas que se misturam e se tocam ao mesmo tempo que se mantém distantes. De difícil digestão? Caso você tente entender algo de forma padrão, sim. Minha dica é se deixar viajar, ficar sem amarras. Chegue às suas próprias conclusões, que fatalmente serão diferentes das dos seus vizinhos de sala. Veja o filme como uma experiência, o que ele realmente é.

Três filmes

Publicado em Sem categoria por Elder em Janeiro, 2008

Os últimos três filmes aos quais assisti foram os seguintes…

“A Vida dos Outros”, do alemão Florian Henckel, mostra a vida de um escritor da Alemanha Oriental sendo acompanhada dia e noite pelo governo socialista. Um dia decidem que aquele homem, cujos livros fazem sucesso no lado capitalista, poderia ser uma ameaça. Desenrola-se um melodrama onde os maus podem ter coração, tudo sem muita discussão. Uma história ótima que vai sendo esvaziada no decorrer do filme, que pouco a pouco se torna um novelão.

“A Culpa é do Fidel”, da grega Julie Gavras, é a primeira experiência ficcional dessa documentarista filha do conhecido diretor Costa-Gavras. Nela, um advogado espanhol radicado em Paris faz uma viagem ao Chile acompanhado de sua mulher numa tentativa de redimir seus pecados. Ele foi embora da Espanha fascista e, depois de um tio ser morto pelo regime de Franco, percebe a covardia de seus atos passados. Acontece que o casal volta revolucionário e sua filha não entende as razões que levaram sua família a se mudar de uma grande casa para um pequeno apartamento e a proibi-la de assistir às aulas de catecismo.

Crianças são crianças e, como tal, são curiosas. Em conversas com sua avó, a menina descobre que os comunistas são barbudos, vermelhos e querem tirar tudo que eles, a burguesia, têm. Já num bate-papo com sua antiga babá fugida de Cuba, ela aprende que a culpa, bem, a culpa é do Fidel, que quer fazer a guerra nuclear. Rapidamente ela junta as peças do quebra-cabeça, vê que aqueles barbudos que passaram a freqüentar seu novo apartamento são comunistas e começa a questionar as atitudes dos pais.

O casal de irmãos é a origem das piadinhas e situações engraçadas que permeiam o filme, como o momento em que o garoto pergunta se o Papai Noel é comunista – já que ele é barbudo e vermelho. A garota, numa noite insone, conversa com os amigos revolucionários da família e ensina a eles que, no capitalismo, o importante é ter lucro. Seria ótimo se não tivesse me lembrado toda hora de outros filmes onde questões políticas são vistas pelos olhos de uma criança, como “Machuca”, de Andrés Wood. Esse, aliás, que trata de um tema muito próximo ao de Julie Gavras: a ditadura pós-Allende no Chile.

“Jogo de Cena”, do brasileiro Eduardo Coutinho, deveria ser visto por todos atores e aspirantes. Mas não só. O documentarista fez anúncios em jornais e escalou mulheres para contarem episódios interessantes de suas vidas. A premissa é simples, mas o resultado é sensacional. Além das mulheres anônimas, Coutinho convocou atrizes conhecidas ou não para encenarem as mesmas histórias. No meio disso tudo, as atrizes também contaram coisas reais e assim a confusão se formou.

As histórias fortes tratam de gravidez, morte e separação. Algumas são engraçadas, outras são tristes e outras até misturam tudo. Uma das atrizes diz que, ao fazer um personagem fictício, você pode atingir um nível medíocre e tudo estará bem, mas ao fazer um personagem real as coisas se tornam muito mais difíceis. Até que ponto ela está imitando ou recriando aquela pessoa? Outra diz que o choro é algo importante na TV e que pessoas de verdade tentam escondê-lo a todo custo, como uma forma de demonstrar força. É difícil saber quem está falando a verdade ou quem a está apenas encenando.