Tudo pode ser, se quiser será
O sonho sempre vem pra quem sonhar
– Maria das Graças
“Inside Job” é um documentário que funciona como ótimo resumo dos fatos da crise financeira atual e chama atenção para vários pontos relevantes, mas o tom panfletário me fazia pensar o tempo todo que aquilo era um filme do Michael Moore com esse verniz mais, digamos, cupcake. É o filme de protesto perfeito para os revolucionários de internet. Pena, pois podia ser muito bom.
A premissa que norteia o roteiro é: bancos e seus executivos são satânicos e maus, enquanto as pessoas normais são ingênuas e boas. O fato de todos estarem brincando e se divertindo enquanto suas ações subiam e suas casas se valorizavam sem sentido é algo ignorado. E dá-lhe argumentação falaciosa que a galera leitora de Slavoy Zyzek gosta tanto.

Reykajavik, capital de uma potência econômica.
Para ganhar nosso coração logo nas primeiras cenas, o diretor Charles Ferguson nos faz acreditar que a Islândia era um próspero país desenvolvido que foi destruído pelo mercado financeiro. Surgem nomes do governo para dizer que “éramos uma economia avançada, limpa, verde” — todo o papo ecológico que a gente curte. Ora, a Islândia nunca deixou de ser um pobre país periférico da Europa. Seus bancos se arriscaram demais e, no momento de stress, viram os investidores que os financiavam fugir. Se o governo islandês assumiu a conta e se isso foi certo ou errado, bem, essa é outra história.
Em dado momento, surge a entrevista com uma cafetina que agenciava garotas de programa para caras de uma série de instituições em Wall Street. Ao que eu lhe pergunto: mas hein? Descobrindo a roda, Ferguson nos informa que muitos homens dos bancos e seguradoras gostam de sexo, strip clubs, carros, grandes casas e barcos, um jatinho talvez e, quem sabe, cocaína. Porque, né, ganhar fortunas e não viver uma vida regrada automaticamente os desqualifica enquanto pessoas aceitáveis. Aparece até um psicanalista pra dar o argumento de autoridade: “essa gente é assim.” Se gastassem dois mil dólares numa tarde numa casa de chá o impacto não seria tão grande.
Ferguson também dá a entender que achou errado (ou imoral) o governo americano ter incentivado a venda do Bear Sterns por 2 dólares a ação no dia seguinte à sua falência. Em seguida, dá a entender que também achou errado (ou imoral) o governo americano ter deixado o Lehman Brothers quebrar e ter injetado a fabulosa quantia de algumas centenas de bilhões de dólares nos bancos que sobraram para que eles, bem, para que eles não quebrassem.
Na visão de mundo do diretor, é possível ser a favor e muito pelo contrário. Ao mesmo tempo. Até a China aparece como depósito de humildade e bom caráter no meio dessa salada. A China, cara.
Por outro lado, “Margin Call” tem a grande vantagem de não ser afetado e ser quase fleumático. E ele também se habilita para uma tarefa pouco nobre: quem trabalha nos bancos é, veja só, gente como a gente — que gosta de sexo, strip clubs, carros, grandes casas e barcos, um jatinho talvez e, bem, melhor não gostar de cocaína.

Eu não tou fazendo nada, você também.
No filme, um funcionário do departamento de risco do banco fictício (Eric Dale, interpretado por Stanley Tucci) descobre que alguns papéis baseados em hipotecas (os “MBS” que são várias vezes citados no roteiro, “mortgage-backed securities”) perigam na realidade não valer nada. Fato: o banco “investe” temporariamente nesses papéis e seu balanço está lotado deles. Problema: bancos vivem endividados, é comum do negócio, e no caso dos nossos heróis isso não é diferente. Possibilidade: os papéis cedo ou tarde perderão valor, o banco terá um mico na mão e não conseguirá pagar suas contas — em português, vai quebrar.
Quando Sam Rogers (Kevin Spacey), espécie de chefe de uma mesa na tesouraria, pede aos seus traders que se desfaçam dos MBS antes que seu valor vá a zero, o que eles deveriam fazer? Se levantar e pedir demissão em massa porque vender papéis que eles sabiam não valer nada poderia acabar com a reputação deles frente a seus clientes? Ou aceitar o risco, vender os papéis, talvez ganhar um bônus milionário e tocar a vida? No fim, o que importa é aquilo que o presidente do banco disse: “neste negócio se ganha de 3 maneiras: sendo o primeiro, sendo o mais esperto, ou trapaceando.”

I'm just a soul whose intentions are good.
Trapacear não faz bem a ninguém, mesmo porque as relações no mercado financeiro — e na vida — se dão na base da confiança. Mas ser mais rápido ou esperto é a lei da natureza. Você acha isso triste ou errado? Uma pena, amigo. As pessoas são assim. Talvez a diferença é que quem trabalha no mercado seja mais assim que os outros.
(Classificação: “Inside Job” – 2 protestos em Wall Street, “Margin Call” – 4 ações bem precificadas)
PS: Apesar de eu ter uma opinião enviesada (afinal, isso tudo aí em cima hoje é a minha vida), acho que há muito a ser questionado. Salários e esquemas de incentivos, o papel dos bancos na economia, a própria divisão interna dos bancos entre tesouraria e corporate banking, “too big to fail” e o risco moral, a provável importância demais que o mercado financeiro tem hoje frente a outras indústrias, a falta de transparência na divulgação de alguns dados financeiros, o papel dos derivativos na diversificação de risco, a divisão entre investment banking e commercial banking, aspectos regulatórios, agências de classificação de risco, etc. Mas também grande parte disso é discussão sacal pra quem não participa diretamente desse negócio.
