On a rooftop in… São Paulo
“Aqui é mais alto que o Skye”, disse a jovem bem vestida assim que saiu no heliponto do edifício New England, em Higienópolis. O céu nublado daquela noite de outono emoldurava as luzes do Pacaembú e região, sendo que dava para ver até pra lá da Marginal Tietê. Fosse de dia, seria possível encontrar vários pontos conhecidos.

Na sexta-feira chegou o email me convidando: “tenho convites para o Johnnie Walker Black Label Unseen New York”. Hein? A marca de bebidas está proporcionando uma série de “experiências únicas” em algumas cidades do mundo e São Paulo é uma delas. No mês passado houve um blind dinner (como se chamam essas coisas?) e, agora, um filme no alto de um prédio. A idéia é se sentir em Nova York.
Nos aproximamos um pouco da cidade americana devido ao vento, ao frio e à garoa que nos presentearam com esse clima “escocês”, segundo o embaixador do Johnnie Walker que estava entre nós, falando com seu sotaque carregado e seu kilt. Houve farta distribuição de água, refrigerante, uísque e petiscos. A distribuição de cobertores, no entanto, não foi tão farta. “Vai ser ótimo pra pegar uma pneumonia”, disse alguém.
O filme? Bem, “Encurralados”, com Pierce Brosnan, não é recomendável.
Cinema político, essas coisas
Revi nesta semana “Persépolis”, a animação-diário de Marjane Satrapi sobre sua infância e adolescência num Irã em ebulição política e social. Alguns filmes ficam melhores na segunda vez, mas definitivamente não foi o caso aqui. Lembro-me de ter saído daquela seção na Mostra um tanto maravilhado… Bobagem. Eu estava bem ansioso para vê-lo e isso talvez tenha ocupado minha mente durante a projeção. O fato é que o filme não é tão bom assim, mas vale o ingresso.
Hoje vi “O Banheiro do Papa”. Esse ficou pra trás na Mostra e, bom, eu diria que é peculiar. Devido à visita de João Paulo II, um furor capitalista toma conta da pequena, pobre e precária Melo, no Uruguai. Moral da história: Deus castiga os que visam o lucro. Mesmo porque enriquecer é pecado, segundo a nova lista divulgada pelo Vaticano. Uma pena, mas vou pro inferno.
BR-3 fazendo escola
Pra quem não sabe, “BR-3″ é uma peça do grupo Teatro da Vertigem que foi encenada dentro do rio Tietê. Algumas das sensações mais estranhas que já senti aconteceram ali, num barco navegando pelo grande esgoto que corta minha cidade. Meses e meses mais tarde, repeti a experiência na Baía da Guanabara, quando a trupe reencenou a peça dentro do festival RioCenaContemporânea. A piadinha “o Vertigem vai encenar ‘BR-3′ no RioCena” ficou mais verdadeira depois que li uma reportagem sobre o Tietê (ou quase isso) no Valor Econômico de quinta-feira.
Que cena foi aquela? Um grupo de gente sobre o convés de um barco, navegando em pleno rio Tietê, erguendo os braços e fazendo “ola” para motoristas de carros, ônibus e caminhões nas marginais travadas, numa manhã cinzenta em São Paulo, na altura do Cebolão? E os motoristas dos carros, ônibus e caminhões, todos devidamente engarrafados, respondendo com acenos e buzinas aos amalucados que navegavam no trecho urbano mais degradado do rio, tomando Prosecco e escutando um saxofonista como se tudo aquilo fosse muito natural? Pois aconteceu no sábado passado e espantou até os urubus que espreitavam às margens.
Assim começa o texto “Bem-vindo ao Tietê“, da Daniela Chiaretti, sobre uma estranha visita de um grupo de arquitetos e amigos de arquitetos ao rio. “Estou me sentindo em Paris”, arrisca Ana Mantovani, professora de história da arte. Realmente o Tietê é nosso Sena.

Ceci n’est pas une pipe.
Segundo o ARQ!BACANA, foi…
Uma oportunidade única de se aproximar de São Paulo, através de uma experiência absolutamente inovadora e diferente, ao som do sax alto do músico Guilherme Figueiroa, com prosecco no “convés” do Almirante do Lago, em plena calha do Tietê.
Alguém me diz que isso foi proposital, por favor.
Depois de “BR-3″ veio o desfile da Cavaleira na São Paulo Fashion Week e, agora, essa visitinha de membros da classe pensante. Ainda neste mês Eduardo Srur, um artista plástico que sempre surge com intervenções bacanas, vai jogar na água garrafas pet enormes. Tenho a impressão que desde a peça do Vertigem tem havido uma atenção maior ao rio, se é que posso dizer assim. Ou talvez seja apenas uma curiosidade insólita.
Ficou interessado? No site você encontra informações sobre as visitas (Tietê: 50 reais, com direito ao prosecco e ao sax) que vão acontecer ou já aconteceram. Recomendo o passeio pelos Artachos.
Literatura
Marcelo Coelho escreveu na Folha sobre o que fazer no trânsito de São Paulo. No blog, ele deu o link de uma editora que vende CDs e, no meio do catálogo, encontrei “Série Legislação: Constituição Federal“.
A “Série Legislação” traz para você a Constituição Federal Brasileira, narrada na íntegra, de forma clara e completa. Esse material é uma ferramenta indispensável para quem quer assimilar todo conteúdo de forma prática e fácil. São 8 Cds de aproximadamente 70 minutos cada, divididos de acordo com os artigos da Constituição Federal.
Que maravilha!
Crise aérea
Neste feriado sagrado, as companhias aéreas brasileiras decidiram presentear seus clientes com santas promoções. Desculpe-me pelo trocadilho. Vamos a elas:
TAM: teoricamente com ida e volta a partir de 99 reais, mas aparentemente apenas saindo do Rio. Saindo de São Paulo, ida e volta a partir de 149, mas as tarifas super-ultra-hiper-mega-flex-baratas estão sempre esgotadas. Manaus: 1000 reais ida e volta.
Gol: Promoção dos 46 reais. Ouvi boatos que pessoas compraram ida e volta por 130, com taxas. Encontrei CGH – CWB por 46 e CWB – CGH por… 355. Nada de festival de teatro em Curitiba no fim-de-semana, portanto. Ponte aérea: 700 reais. Manaus: 1400 reais.
Varig: Promoção dos 48 reais. O site está fora do ar.
Pra finalizar, uma comparação… São Paulo – Porto Velho (Rondônia, pra quem não se lembra) sai por 1795 reais, com taxas, na Gol. São Paulo – Nova York (EUA, pra quem não se lembra) sai por 1642 reais, com taxas, na Delta.
Sabedoria das ruas
Ouvido na Oscar Freire.
Eu não sou uma fumante inveterada, mas sou uma adicta.
Ouvido num ônibus na periferia.
Sabe, você tem que estudar e trazer essas coisas pros salões daqui. Não dá pra ficar pensando o dia todo em Jacques Janine.
Conexões
“Onde os Fracos Não Têm Vez” é um dos poucos títulos que, traduzidos, são tão bons quanto os originais. No caso, “No Country For Old Men”. Tanto um quanto o outro faz sentido e pode ser alvo de discussões infinitas. Ótimo Oscar para os irmãos Coen. E Daniel Day-Lewis em “Sangue Negro”? Inexplicável. Assim como a trilha sonora e o próprio filme do Paul Thomas Anderson, queridinhos dos descolados desde, pelo menos, “Magnólia”.
Quem ganhou Oscar também foi “Juno”, levando o prêmio de melhor roteiro para o texto de Brook Busey, mais conhecida por seu nome de guerra “Diablo Cody”. Não sei, mas ninguém tira da minha cabeça que ela é uma espécie de Fernanda Young born in Chicago. O verbete sobre a escritora brasileira na Wikipédia começa de maneira sensacional.
“Sua formação literária foi em parte constituída durante a travessia da Baía de Guanabara em barcas ou ônibus. Dedicou-se aos livros na busca de aperfeiçoamento, influências e distração. Autores como Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald, Shakespeare, Gerard de Nerval, Thomas Mann, Balzac, Oscar Wilde, Malcolm Lowry, William Faulkner, Milan Kundera, V.S. Naipaul, Truman Capote, J.D. Salinger, Jorge Luis Borges, Cabreira Infante, José Saramago, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Machado de Assis, Márcia Denser, T.S. Eliot, Paul Éluard, Charles Baudelaire, Fernando Pessoa e Sylvia Plath misturam-se, com naturalidade, a Harold Robbins, Sidney Sheldon, Cassandra Rios e V.C. Andrews. A filosofia também sempre foi seu interesse e, dentre seus favoritos estão Schopenhauer, Nietzsche e Cioran.”
Acho bacana como ela conseguiu ler tanta coisa numa balsa sem ao menos enjoar. Sem trocadilhos. Outro grande personagem da brasilidade que surgiu na balsa Rio – Niterói foi Senor Abravanel. Assim, fecha-se a trinca Diablo Cody – Fernanda Young – Sílvio Santos.

E “Juno”, dizem, é o “Little Miss Sunshine” deste ano. Ou “Sideways”. Enquanto o primeiro fala sobre uma garotinha em busca da felicidade, o segundo fala de um homem quase senil em busca da felicidade. Grosso modo, a recente produção fala de uma jovem em busca da felicidade. Pronto. Encontramos as conexões entre as três fitas indie.
Como é um filme pop alternativo, conta com um desfile de personagens freak, desde a Juno do título com seu namorado meio andrógino / meio tímido, até a madrasta que gosta de cachorros e o yuppie legal que toca guitarra. Fofura elevada à n-ésima potência, não? Claro, a trilha sonora também é um destaque positivo. Ela vem com “Sea of Love”, versão da Cat Power pra uma música de Phil Phillips e George Khoury, o que me faz mudar de assunto no próximo parágrafo.
Eu adoro a Cat Power. Digo, a Chan Marshall. Bonita, problemática e com uma voz rouca, poderia muito bem ser um personagem almodóvariano, mas não. Ela decidiu, drogar-se, beber, cantar e ganhar dinheiro com isso. Seu último CD, “Jukebox”, é o segundo de covers em sua carreira – “Sea of Love”, remake da música de 1959 e trilha de Juno, está em “The Covers Record”. Mas não são simples regravações de sucessos de outras bandas. Marshall destrói e reconstrói as músicas de forma a torná-las quase irreconhecíveis. “New York, New York”, o tema de Frank Sinatra para o filme homônimo, é uma coisa, assim, divertida.