Dois meses

It’s alive!

Publicado em aleatório por Elder em Fevereiro, 2008

Filmes-catástrofe sempre são divertidos: ou você fica tenso e ligado ou o filme é tão tosco que se torna engraçado porque também é ridículo. O mesmo se aplica a filmes de monstro, outra categoria de enorme sucesso e da qual faz parte “Cloverfield” – que, na falta de tradução melhor, acabou ganhando o sufixo “Monstro” na versão brasileira.

Nessa produção de J.J. Abrams (“Lost”), um monstro ataca… Nova York e a cidade é destruída. Digo, parece ter sido destruída. Como estamos na era do YouTube, a idéia do roteiro foi mostrar tudo pelas lentes de uma câmera amadora. Ao menos é uma maneira de diminuir os custos do estúdio. Qualquer semelhança com a idéia por trás de “Redacted”, de Brian De Palma, não é coincidência. Mas faça o favor de não imaginar que estou comparando os dois filmes.

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Ah, eu gosto de filmes-catástrofe e filmes de monstro. Aliás, eu gosto de explosões. Daí vem o prazer em assistir aos filmes do James Bond, por exemplo. Esse, pra mim, é o primeiro ponto fraco de “Cloverfield”.

Pelo fato de vermos o mesmo que um personagem, nossa visão não é muito ampla. Além disso, ela é tremida e escura. Faltam explosões, bombas e fogo. Em certo momento os militares são apresentados atacando o monstro, mas o que vemos são apenas os tiros e um pouco de fumaça. Como se não bastasse a falta de explosões, o filme ainda conta com uma história de amor. Esse é o segundo ponto fraco.

Vamos à situação: você está sendo expatriado para ser vice-presidente de algo não identificado. Seus amigos bonitos e bem vestidos fazem uma festa surpresa para se despedir etc. Durante a festa, você briga com seu caso/namorada. Ela sai, você se despede de forma seca e dispensável e um monstro ataca a cidade. Você sente que deve se redimir dos pecados e o mais recente deles é, claro, a briga com o caso/namorada. Acima de tudo e da própria sobrevivência, todos precisam se redimir dos pecados quando um monstro ataca a cidade. A cidade é Nova York, você mora no sul de Manhattan e seu caso/namorada mora em Columbus Circle, perto do Central Park e a uns quatro quilômetros do seu loft. Os militares dizem pra você fugir da ilha, mas você realmente precisa se redimir dos pecados e decide adentrar o inferno godzilliano. Seus amigos qe sobraram querem ir junto, filmando tudo enquanto a bateria infinita durar.

Sobram questões sobre a mente dos personagens.

Quanta bobagem.

144,75 dias

Publicado em aleatório por Elder em Fevereiro, 2008

Usei o Google pra fazer a conta de “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, filme do romeno Cristian Mungiu e vencedor da Palma de Ouro em Cannes. A esta altura do campeonato, todos já sabem do que se trata: é a história de uma jovem que decide fazer aborto – e o título remete ao tempo de gravidez até o dia D.

Isso seria plenamente normal se a jovem estivesse na Romênia atual, onde o aborto é legalizado e praticado em hospitais públicos e particulares por aproximadamente 75% das grávidas. Lembro-me bem de conversar com uma colega romena (sim, acredite) e ouvi-la falar que “se eu ficar grávida, é só abortar”. Um choque pra nós, conservadores religiosos.

Como o filme se passa em 1987, a dois anos do fim da ditadura comunista de Nicolae Ceauşescu, a brincadeira é um pouco diferente. Naquele momento o aborto era proibido, a situação econômica era precária e o país estava atrasado. Não que as coisas tenham mudado muito, tanto que algumas pessoas comentam (desde 2004) que a Romênia entrou “cedo demais” na União Européia…

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Mungiu faz escolhas belas na composição de suas cenas, como o grande momento em que Otilia está sentada à mesa no jantar de aniversário de sua sogra com a cabeça a mil, pensando no que estaria acontecendo com sua amiga grávida Gabita, enquanto os outros convidados soltam suas barbaridades amenas típicas. A câmera geralmente posicionada numa altura baixa, cenas fechadas e a ausência de trilha sonora se somam para tornar abordagem seca e naturalista.

O tratamento duro que o diretor nos dá durante todo o filme é amenizado quando as amigas pagam parte do custo do aborto com sexo e nada é mostrado ou quando surge a cena mais comentada pela imprensa: o feto. Pra mim, toda a força dessa dureza se esvaiu naquele quase-humano de uns 15 centímetros deixado limpo e impecável sobre um pano no chão do banheiro. Não houve sangue, não houve dor. Ou melhor: se houve, fomos poupados.

O diretor, que dependendo do seu ponto de vista poderia parecer estar fazendo um filme anti-aborto ou pró-aborto, nos deixa em dúvida. Para o que ele está tentando abrir nossos olhos mesmo? Gabita, no momento de humor negro, vai para o restaurante do hotel onde o aborto foi feito e come um prato com vários tipos de carne. Não há esperança nessa Romênia.