Stroopwafels
Gouda é uma cidade na Holanda a cinqüenta minutos de Amsterdam (preço do trem: 9,60 euros) e conhecida por ser o local de invenção do queijo que leva seu nome. Eu gosto de Gouda, mas não por causa do queijo. Foi lá que inventaram também uma das coisas mais gostosas que já saíram daquele país: o stroopwafel.

Conheci o tal stroopwafel através de um conhecido que estava morando por lá. Um amigo em comum foi visitá-lo e trouxe de volta os pacotes com aquela espécie de bolacha recheada com um caramelo que fica melhor ainda quando quente – na frigideira, no microondas ou, como fazem os holandeses, deixando em cima da xícara de café. Acaba rápido, acaba muito rápido. E o pior é que é barato. Com dois euros se compra um pacote com dez e, se eu morasse na Holanda, teria uma overdose de açúcar por culpa do stroopwafel.
Voltei pro Brasil disposto a encontrar o doce aqui em São Paulo. Procurei em vão por vários lugares, de empórios chiques nos Jardins ao Mercado Municipal. Mobilizei amigos na busca. Já triste, imaginando que só comeria novamente quando voltasse sei lá quando pra Holanda, recebi um SMS: “tem stroopwafel no Pão de Açúcar”. Hein?
Encontrei. Sim, encontrei. Havia uma profusão de caixas de stroopwafels na porta do mercado, bonitas, com oito unidades por dez reais. O dobro do preço na origem, é verdade, mas fazer o quê. São produzidos pela Casino, uma rede francesa de supermercados que aportou dinheiro na CBD (controladora do Pão de Açúcar) há um tempo. Fazem parte de uma série de produtos chamada “Saveurs d’Ailleurs” e se chamam “gaufres hollandaises”, o que me lembra de uma coisa.

“Gaufre” é um doce típico da Bélgica, que chamamos aqui no Brasil de “favo holandês” ou de “waffle”. É bem diferente do stroopwafel e, como se vê, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Assim como o kebab, que é turco mas a gente chama de churrasco grego.
Vou te contar
Desde que me rendi ao RSS minha vida é melhor. Agora leio os blogs que acompanho sem gastar tantos cliques no mouse (o que será bom para a tendinite) e sem ter de aturar designs feios e cheios de propagandas. Aliás, a mercantilização dos blogs anda em níveis quase insuportáveis. Digo, a “monetização”, que é a palavra da moda. Mercantilização é feio, né? Lembra mercado… Falarei sobre isso futuramente.
Escolhi para tão nobre tarefa o Google Reader. Poderia ter baixado algum software específico para isso, pois já vi uns muito simpáticos que rodam no Mac, mas decidi dar mais um voto de confiança ao Google porque: é grátis, prático e, mais importante, posso acessar de qualquer lugar. Percebi que algumas vezes os feeds não são atualizados no mesmo instante, mas não sei se é um problema no Reader ou na idéia geral de RSS.
Fato é também que tenho assinado mais feeds que o necessário. É tão simples clicar no botãozinho no Firefox e adicionar mais aquele blog à lista do Reader que chega a ser quase impossível não fazê-lo. Claro que depois é um problema arranjar tempo para ler tudo, mas vamos levando. Por enquanto tenho 46 feeds assinados.
Cinco filmes
Pra continuar a série sobre cinema, mais cinco filmes que vi.
“Medos Privados em Lugares Públicos”, de Alain Resnais, é uma espécie de “Closer” dans Paris e… Espera. Acabei de ler o seguinte na Contracampo:
Existe a tentação, é comum até, de só se olhar para o enredo e menos para o enfoque, e assim considerar o filme como uma espécie de Closer acrescido de mais dois personagens, incrivelmente melhor atuado, mais elegante (também, não era difícil) e com personagens em idade mais velha.
Saco. Se caí nessa tentação, não posso mais falar sobre esse filme. Leia os comentários daquela revista e ignore os meus. Não tenho mais moral para falar dos outros, mas vou dizer rapidamente o que achei de cada um.
“Mutum”, de Sandra Kogut, é bom.
“Meu Nome Não é Johnny”, de Mauro Lima, é bom.
“Em Paris”, de Christophe Honoré, é bom.
“Xuxa em Sonho de Menina”, de Rudi Lagemann, eu não vi.
Livro Legal
Tudo bem que não tenho visto TV, mas o Gugu falando de livros em seu programa “Domingo Legal” é uma novidade incrível para mim. O quadro é criativamente chamado de “Livro Legal” e hoje Augusto Liberato mostrava as maravilhas de “Cinco Minutos”, obra de José de Alencar escrita em 1856. Favor não confundir com “Onze Minutos“, cria do mago Paolo Coniglio feita em 2003.
Enquanto as benesses da leitura eram divulgadas ao grande público, cópias do livro pocket editado pela L&PM eram distribuídas entre as colegas de auditório, que não demonstravam tanto entusiasmo ao serem presenteadas com o texto do mesmo autor de “O Guarani” — este sim, clássico da Fuvest.
Sinto que alguém se inspirou na apresentadora de TV mais bem sucedida do mundo, Oprah Winfrey. Ela mantém desde 1996 seu Oprah’s Book Club com imenso sucesso de público e crítica. Apenas em 2002 houve uma pausa nas dicas, quando ela alegou não estar com tempo para ler muito e, portanto, não podendo indicar boas opções para seus espectadores. “It has become harder and harder to find books on a monthly basis that I feel absolutely compelled to share”, declarou a moça. Por enquanto, Gugu não tem o mesmo poder de persuasão da apresentadora, que acabou por cunhar o “efeito Oprah” graças à sua capacidade de elevar títulos obscuros ao panteão dos bestsellers.
Você não ouviu o que Gugu disse, mas acredita no bom-gosto dele e quer ler o livro comentado neste domingo? Pode comprar a versão da Martin Claret, que vem com “Iracema”, por dez reais. No site da Oprah (que é uma grande comunidade virtual, como dita a moda) há fóruns de discussão sobre os títulos indicados. Espero que façam o mesmo aqui e espero também o dia em que ele falará sobre “Ana Karenina“, de Tolstói, como fez sua colega americana.
Império dos Sonhos
Mais de um ano após a estréia de “Império dos Sonhos” nos Estados Unidos, fui hoje ao cinema ver esse que é o mais novo filme de David Lynch e que trata da história de “uma mulher em perigo”. Li muito sobre a produção e fiquei sabendo por antecedência que, se há roteiro, é um fiapinho quase invisível, e que esse é o filme mais estranho já feito pelo diretor. Algo que me marcou nessas leituras foi a primeira frase da crítica de Manohla Dargis no New York Times: “No cinema, há poucos lugares mais medonhos para se estar do que na cabeça de David Lynch.”
É um pesadelo constante, essa cabeça. Fui sendo levado pela história (hein?) criada por ela e, em dado momento, não sabia mais o que era o filme, o que era o filme dentro do filme, o que era pensamento e o que era a realidade. Contei as pessoas que saíram antes do fim e foram umas quinze. Imaginei que mais gente desistiria do estranho laboratório lynchiano.
Foi a prova que as imagens valem mais que as palavras. Um filme sem estrutura narrativa linear e aparentemente sem nexo, onde você nunca sabe o que está olhando, onde existem umas n camadas que se misturam e se tocam ao mesmo tempo que se mantém distantes. De difícil digestão? Caso você tente entender algo de forma padrão, sim. Minha dica é se deixar viajar, ficar sem amarras. Chegue às suas próprias conclusões, que fatalmente serão diferentes das dos seus vizinhos de sala. Veja o filme como uma experiência, o que ele realmente é.
Até o dia em que o cão morreu
Publicado em 2003 pela Livros do Mal, encontrar uma cópia de “Até o dia em que o cão morreu” em 2006 era uma tarefa difícil. Cheguei a mandar um email pro Daniel Galera, o autor, perguntando sobre isso e ele me respondeu que havia umas duas disponíveis aqui em São Paulo. Acabei não indo atrás, fui viajar e, quando voltei, o livro tinha sido publicado novamente (dessa vez pela Companhia das Letras) e já tinha até virado filme (“Cão sem dono“, de Beto Brant). Comprei nesta semana.
Li as noventa e nove páginas em pouquíssimas horas. O mesmo tinha acontecido quando comprei “Mãos de cavalo”, livro mais recente do Galera. É algo mais forte que eu: você senta, começa a ler e, quando vê, já acabou. Bom, “Até o dia…” é mais fraco que o “Mãos de cavalo”, mas eu já esperava isso pois o normal é que se evolua com o tempo. O primeiro livro dele, “Dentes guardados“, é uma coletânea de contos, alguns bons e outros ruins. Enfim.
Uma crítica que foi bastante feita ao livro é que nele não acontece nada. Realmente, mas também não sei até que ponto isso é uma coisa ruim pois há muitos livros e filmes onde não acontece nada. O narrador é um cara com quem é fácil se identificar: jovem, recém-formado, desempregado, acabou de sair da casa dos pais, precisa de dinheiro, não tem namorada mas vem pegando o que surge, questiona sua vida etc. O mais próximo de companheiro na existência desse personagem é o cão que ele encontra na rua e passa a viver com ele. Eu diria que mais que isso, o cão também é uma imagem daquilo que o narrador queria ser. Ele é independente e sozinho, sai pra rua pra brigar com os outros cachorros e pra procurar fêmeas desprotegidas mas, acima de tudo, é leal e, por que não?, compreensivo.
Pra mim, é como se o narrador dissesse “vejam! eu sou sozinho, mas também sou amável. eu faço de conta que não preciso de ninguém, mas queria ter alguém ao meu lado”. Esse alguém é Marcela, a modelo que surge de forma bizarra na vida do narrador. Um tanto fútil, seus sonhos giram em torno da carreira e do dinheiro. Ela quer viajar, ter casas, curtir as coisas boas da vida. De certa maneira, ela também é independente mas precisa de alguém para, principalmente, criticá-la. As críticas vêm do narrador e também de problemas que surgem na vida dela.
O livro é cheio de algumas coisas que não me agradaram, alguns vícios e coisas assim. Tem até um ensaio de lição de moral. No entanto, é difícil dizer que não gostei ou que é ruim, mesmo porque eu não sou crítico e nem nunca escrevi história nenhuma. Diferentemente de “Mãos de cavalo”, aqui a gente já tem um personagem pronto, então a identificação que surge do fato de acompanharmos a formação do personagem não existe, mas, como falei ali em cima, ainda é possível se identificar com o estereótipo do jovem urbano etc., etc. (ah, esses malditos lugares comuns do tipo “romance de formação”….) Foi uma boa experiência.




