14 de Julho de 2008
Era um trem da Magyar Államvasutak, ou, como eles chamam, Máv. A linha: Bucureşti Gara de Nord - Praha hlavní nádraží. A viagem toda dura mais de 24 horas, quando sem atrasos, mas a peguei na metade final. Embarquei na estação Budapest Keleti pályaudvar, ou, como eles chamam, Budapest Keleti pu. Era o começo da pior viagem que já fiz na minha vida.

O trem já estava na estrada há 13 horas, sacolejando desde a distante Bucareste, capital romena que fica quase na esquina com a Bulgária. Ao chegar em Budapeste, sentia o calor que emanava das rodas de ferro que já deviam ter rodado milhões de quilômetros por aquelas ferrovias construídas durante o regime soviético. Uma baciada de gente feia descia pelas portas apertadas enquanto observávamos impávidos aquele povo sofrido. Nós, fortes e bem-nutridos, com nossas mochilas pesadas e toda a garra de um passeio absurdo pelos cantos da Europa. Era começo de noite na Hungria e o sol ainda estava longe de se pôr. Seus raios alaranjados passavam pelos vidros e pela grandiosa entrada da estação.
Às 19h17, partimos.
Deixava para trás uma cidade pela qual me apaixonei e o medo começava a tomar conta de mim: serei assaltado? morto? seqüestrado? Às 21h32 chegamos em Győr e deixamos o país da língua do demônio para entrar na Eslováquia. Tempos depois, o trem passou lentamente pelo centro de Bratislava até ficar vinte e quatro minutos parado em Bratislava Hlavna Stanica, a principal estação da capital eslovaca. O relógio batia 23h44 quando voltamos a nos movimentar e eu olhava pela janela as luzes dos outdoors naquele país que não existia 14 anos antes.
Nesses momentos pensava o que meus amigos e minha família estariam fazendo no Brasil, onde ainda não eram 18h. Talvez estivessem no trânsito ou em casa vendo a novela. Eu não. Eu estava num trem na Eslováquia.
Břeclav foi a primeira parada na República Tcheca, à 1h15. Passamos por Brno, a segunda maior cidade do país, às 2h15 e finalmente chegamos a Praga, terra natal de Franz Kafka e da Revolução de Veludo, às 6h14. Foram onze horas no balanço, no desconforto e na sujeira. Isso foi há exatamente um ano.
Sinto saudades.
Postado em atualidade, bizarro, burguesia, capitalismo, choque, conflitos políticos, crise aérea, drogas, europa, explosões, fim do mundo, geografia, glamour, história, hype, leste europeu, luxo, medo, mistérios, socialismo, tecnologia, tradição, transporte público | Nenhum comentário »
23 de Maio de 2008
O Domo do Milênio, em Londres, foi o grande erro de Tony Blair. Parecia uma coisa bacana fazer uma espécie de coliseu moderno na periferia da cidade, mas iam usar pra quê? Aconteceu que o Domo virou um elefante branco e foi vendido (ou dado em comodato, sei lá) pra O2, uma operadora de telefonia na Inglaterra. Virou The O2 e transformou-se num espaço para mostras e restaurantes e palco de grandes eventos esportivos ou musicais.
Por exemplo, Daniella Mercury.
A autora de “Alegria agora” irá se apresentar na capital britânica no dia 6 de Junho, no espaço chamado “indigO2″, que é tipo um Baretto. Mentira, é tipo um palco menor dentro da mega tenda que é The O2. Por 40 libras você verá Daniella e o Balé Mulato. Mas porque estou falando disso mesmo? Ah, sim, o Domo. Fica meio longe do centro de Londres, mas dá pra chegar lá de metrô, carro, táxi, ônibus, DLR (que é tipo um monotrilho) e trem. Ou, a minha preferência, de barco.
O Thames Clipper é um serviço de barcos pelo Tâmisa oferecido por uma empresa privada que pode levar os espectadores ao O2. O Thames Clipper também administra o serviço “Tate to Tate”, que conecta a Tate Modern com a Tate Britain via rio. Mas voltando ao show da Daniella, convenhamos que é muito mais chique pegar um barco na London Bridge e descer seis pontos depois na O2. Se você for mais chique ainda, paga mais caro, embarca no O2 Express na Waterloo Bridge e vai direto — bebericando champanhe. De 2,50 a 18 libras, é tudo uma questão de escolha. Aposto que o Balé Cafuzo (ou Mulato, sei lá) vai desse jeito.
Isso me faz pensar que falta algo assim em São Paulo. Alguém poderia, por exemplo, pegar um barco no viaduto Imigrante Nordestino, o mais ao leste da Marginal Tietê, e descer uma meia hora depois na avenida Interlagos, no ponto mais ao sul da Marginal Pinheiros, pra ver a Fórmula 1. (na verdade, ali nem é mais marginal, mas deu pra entender a idéia)
Imagina que beleza deixar seu carro estacionado na USP, ir num shuttle exclusivo até o pier Cidade Universitária e entrar num barco-bar que o levará até a ponte Transamérica. Lá você desceria e entraria em outro shuttle exclusivo que o deixaria na porta do Teatro Alfa. Imagine as mulheres com chapéus enormes… Depois jantariam no restaurante no topo da ponte estaiada. Seria um retorno à belle époque paulistana. Poderia até ser criado um circuito do jet-set, com paradas na Hebraica, no Jóquei e na Daslu, além do já citado Alfa.
Mas somos uma cidade de muitos contrastes. Não podemos apenas pensar na alta sociedade e, por isso, proponho a criação de linhas como a Expresso Morumbi. Ela servirá tanto para os trabalhadores se deslocarem até a Berrini, quanto para os torcedores chegarem ao estádio homônimo em dias de jogo. Os corinthianos adorariam poder embarcar na ponte do Tatuapé e descer com tranqüilidade e conforto minutos depois na ponte do Morumbi. O problema seria possíveis brigas entre torcidas. Não gostaria de acordar na quinta-feira e ler na capa da Folha: “Embate entre torcidas afunda barco com são-paulinos nas imediações da ponte Bernardo Goldfarb”.
Postado em aleatório | Nenhum comentário »
4 de Maio de 2008
Postado em burguesia, capitalismo, choque, cinema indie, europa, explosões, festividades, frança, glamour, história, intelectualidade, medo, música, paris, política, sabedoria das ruas, tradição | Nenhum comentário »
27 de Abril de 2008
O fato é que eu, num acesso de infantilidade, achei que conseguiria ficar em casa estudando para a prova que terei nesta semana. Com isso, deixei de sair ontem à noite para ver as atrações da Virada Cultural. Obviamente não estudei. Certo de que não poderia deixar de ver uma coisinha que fosse na festa deste ano, deixei minha casa à tarde com destino ao Teatro Municipal. Lá chegando, veria o show de Fabiana Cozza, uma cantora sobre a qual uma amiga não pára de comentar. Meus colegas chegaram todos atrasados e, bem, havia uma fila gigante em volta do Teatro — não para ver Fabiana, mas sim Jair Rodrigues. Ok, tem show dela no Auditório Ibirapuera no começo do mês.
Seguimos então para a av. São João. Queríamos ver Jorge Ben e seus pê-pê-re-pês-taj-mahal infindáveis e inegavelmente dançantes. No caminho, centenas de pessoas andando pelas ruas do centro e a sensação de satisfação que me acontece todos os anos durante esse evento. Cheguei a comentar que agora me lembrava a Fête de la Musique que participei em Genebra… Rapidamente fui enxotado e continuamos caminhando naquele calor que era maximizado pelo asfalto e pelos prédios.
Ao atingirmos o ponto histórico de São Paulo, a esquina com a Ipiranga, fomos enfeitiçados pelo brilho do Bar Brahma. Tentamos seguir em frente para ver Jorge mais de perto, só que o chopp gelado foi mais forte. Acabamos ficando nas mesinhas da área externa do bar ouvindo samba rock, dançando sem sair das cadeiras e aproveitando o início de noite na cidade.
Postado em atualidade, balada, brasil, cidade, estudos, europa, eventos, festa, festividades, música, noite, novidades, o brasil não pode parar, sabedoria das ruas, suco grátis, são paulo, tradição, ufanismo, álcool | Nenhum comentário »
30 de Março de 2008
“Aqui é mais alto que o Skye”, disse a jovem bem vestida assim que saiu no heliponto do edifício New England, em Higienópolis. O céu nublado daquela noite de outono emoldurava as luzes do Pacaembú e região, sendo que dava para ver até pra lá da Marginal Tietê. Fosse de dia, seria possível encontrar vários pontos conhecidos.
Na sexta-feira chegou o email me convidando: “tenho convites para o Johnnie Walker Black Label Unseen New York”. Hein? A marca de bebidas está proporcionando uma série de “experiências únicas” em algumas cidades do mundo e São Paulo é uma delas. No mês passado houve um blind dinner (como se chamam essas coisas?) e, agora, um filme no alto de um prédio. A idéia é se sentir em Nova York.
Nos aproximamos um pouco da cidade americana devido ao vento, ao frio e à garoa que nos presentearam com esse clima “escocês”, segundo o embaixador do Johnnie Walker que estava entre nós, falando com seu sotaque carregado e seu kilt. Houve farta distribuição de água, refrigerante, uísque e petiscos. A distribuição de cobertores, no entanto, não foi tão farta. “Vai ser ótimo pra pegar uma pneumonia”, disse alguém.
O filme? Bem, “Encurralados”, com Pierce Brosnan, não é recomendável.
Postado em arquitetura, balada, burguesia, cantoras drogadas, capitalismo, cidade, cinema, dinheiro, eventos, festa, glamour, hype, luxo, noite, suco grátis, são paulo, álcool | Nenhum comentário »
22 de Março de 2008
Revi nesta semana “Persépolis”, a animação-diário de Marjane Satrapi sobre sua infância e adolescência num Irã em ebulição política e social. Alguns filmes ficam melhores na segunda vez, mas definitivamente não foi o caso aqui. Lembro-me de ter saído daquela seção na Mostra um tanto maravilhado… Bobagem. Eu estava bem ansioso para vê-lo e isso talvez tenha ocupado minha mente durante a projeção. O fato é que o filme não é tão bom assim, mas vale o ingresso.
Hoje vi “O Banheiro do Papa”. Esse ficou pra trás na Mostra e, bom, eu diria que é peculiar. Devido à visita de João Paulo II, um furor capitalista toma conta da pequena, pobre e precária Melo, no Uruguai. Moral da história: Deus castiga os que visam o lucro. Mesmo porque enriquecer é pecado, segundo a nova lista divulgada pelo Vaticano. Uma pena, mas vou pro inferno.
Postado em cinema, conflitos políticos, cristianismo, explosões, guerra, histórias tocantes, oriente médio | Nenhum comentário »
22 de Março de 2008
Pra quem não sabe, “BR-3″ é uma peça do grupo Teatro da Vertigem que foi encenada dentro do rio Tietê. Algumas das sensações mais estranhas que já senti aconteceram ali, num barco navegando pelo grande esgoto que corta minha cidade. Meses e meses mais tarde, repeti a experiência na Baía da Guanabara, quando a trupe reencenou a peça dentro do festival RioCenaContemporânea. A piadinha “o Vertigem vai encenar ‘BR-3′ no RioCena” ficou mais verdadeira depois que li uma reportagem sobre o Tietê (ou quase isso) no Valor Econômico de quinta-feira.
Que cena foi aquela? Um grupo de gente sobre o convés de um barco, navegando em pleno rio Tietê, erguendo os braços e fazendo “ola” para motoristas de carros, ônibus e caminhões nas marginais travadas, numa manhã cinzenta em São Paulo, na altura do Cebolão? E os motoristas dos carros, ônibus e caminhões, todos devidamente engarrafados, respondendo com acenos e buzinas aos amalucados que navegavam no trecho urbano mais degradado do rio, tomando Prosecco e escutando um saxofonista como se tudo aquilo fosse muito natural? Pois aconteceu no sábado passado e espantou até os urubus que espreitavam às margens.
Assim começa o texto “Bem-vindo ao Tietê“, da Daniela Chiaretti, sobre uma estranha visita de um grupo de arquitetos e amigos de arquitetos ao rio. “Estou me sentindo em Paris”, arrisca Ana Mantovani, professora de história da arte. Realmente o Tietê é nosso Sena.

Ceci n’est pas une pipe.
Segundo o ARQ!BACANA, foi…
Uma oportunidade única de se aproximar de São Paulo, através de uma experiência absolutamente inovadora e diferente, ao som do sax alto do músico Guilherme Figueiroa, com prosecco no “convés” do Almirante do Lago, em plena calha do Tietê.
Alguém me diz que isso foi proposital, por favor.
Depois de “BR-3″ veio o desfile da Cavaleira na São Paulo Fashion Week e, agora, essa visitinha de membros da classe pensante. Ainda neste mês Eduardo Srur, um artista plástico que sempre surge com intervenções bacanas, vai jogar na água garrafas pet enormes. Tenho a impressão que desde a peça do Vertigem tem havido uma atenção maior ao rio, se é que posso dizer assim. Ou talvez seja apenas uma curiosidade insólita.
Ficou interessado? No site você encontra informações sobre as visitas (Tietê: 50 reais, com direito ao prosecco e ao sax) que vão acontecer ou já aconteceram. Recomendo o passeio pelos Artachos.
Postado em arquitetura, bizarro, brasil, burguesia, capitalismo, choque, cidade, cruzeiro pela costa, dinheiro, frança, glamour, hype, intelectualidade, luxo, medo, modernismo, paris, sabedoria das ruas, suco grátis, são paulo, ufanismo, viciados | Nenhum comentário »
21 de Março de 2008
Marcelo Coelho escreveu na Folha sobre o que fazer no trânsito de São Paulo. No blog, ele deu o link de uma editora que vende CDs e, no meio do catálogo, encontrei “Série Legislação: Constituição Federal“.
A “Série Legislação” traz para você a Constituição Federal Brasileira, narrada na íntegra, de forma clara e completa. Esse material é uma ferramenta indispensável para quem quer assimilar todo conteúdo de forma prática e fácil. São 8 Cds de aproximadamente 70 minutos cada, divididos de acordo com os artigos da Constituição Federal.
Que maravilha!
Postado em bizarro, direito, eficiência, estudos, fim do mundo, o brasil não pode parar, são paulo, tempo, transporte público, trânsito, viciados | Nenhum comentário »
21 de Março de 2008
Neste feriado sagrado, as companhias aéreas brasileiras decidiram presentear seus clientes com santas promoções. Desculpe-me pelo trocadilho. Vamos a elas:
TAM: teoricamente com ida e volta a partir de 99 reais, mas aparentemente apenas saindo do Rio. Saindo de São Paulo, ida e volta a partir de 149, mas as tarifas super-ultra-hiper-mega-flex-baratas estão sempre esgotadas. Manaus: 1000 reais ida e volta.
Gol: Promoção dos 46 reais. Ouvi boatos que pessoas compraram ida e volta por 130, com taxas. Encontrei CGH - CWB por 46 e CWB - CGH por… 355. Nada de festival de teatro em Curitiba no fim-de-semana, portanto. Ponte aérea: 700 reais. Manaus: 1400 reais.
Varig: Promoção dos 48 reais. O site está fora do ar.
Pra finalizar, uma comparação… São Paulo - Porto Velho (Rondônia, pra quem não se lembra) sai por 1795 reais, com taxas, na Gol. São Paulo - Nova York (EUA, pra quem não se lembra) sai por 1642 reais, com taxas, na Delta.
Postado em bizarro, brasil, burguesia, choque, crise aérea, dinheiro, festividades, glamour, luxo, mistérios, o brasil não pode parar, suco grátis, transporte público | Nenhum comentário »