A polícia na USP, ou baderna e repressão

Junho, 2009

Dos assuntos desta semana, um que diretamente me dizia respeito foi a entrada da Polícia Militar no campus da Cidade Universitária na terça-feira, 9 de junho.

Primeira coisa: a PM não é proibida de entrar no campus. Aliás, a PM e a USP têm relações muito próximas, como por exemplo a seleção dos alunos para a Academia do Barro Branco, que é feita pela Fuvest. Isto dito, continuemos.

Essa virtual proibição existe desde o fim da ditadura. Ainda hoje os movimentos políticos da universidade dizem que a entrada da polícia na gloriosa instituição simbolizaria o medo, a repressão e os sentimentos ditatoriais de forças estranhas etc.

Fato é que a Cidade Universitária ainda está dentro de São Paulo e, como tal, não deveria ser um local de acesso proibido a algum órgão do governo.

Eu sou favorável à presença da PM no campus (vermelhos, podem jogar suas pedras e flores) pois o policiamento feito pela Guarda Universitária é inexistente e nunca coibiu assaltos, furtos ou estupros. Não, eu não acredito que a simples presença da polícia resolva todos nossos problemas de segurança, mas certamente alguma polícia é melhor que nenhuma polícia.

No entanto, a questão é outra.

Apresentando os personagens

É importante explicar o who’s who da vida uspiana. Temos os seguintes personagens envolvidos na trama:

  • Sintusp: o sindicato dos funcionários é um sindicato como qualquer outro. Assim, utiliza a política do “queremos tudo, não nos importamos com o orçamento e, aliás, quem inventou orçamento?”
  • Alunos revolucionários: esse pequeno grupo de alunos domina o DCE e boa parte dos CAs. Sua vida é geralmente dedicada à causa marxista e têm um relacionamento muito bom com o Sintusp.
  • Reitora: assim como na vida política de verdade, a eleição de qualquer pessoa para um cargo de destaque causará mau-humor em seus adversários. Com o cargo máximo da USP não é diferente e a reitora coleciona amigos e inimigos por onde passa.
  • Os outros: professores não envolvidos com a causa e alunos que estão mais preocupados com suas notas ou com a próxima Quinta & Breja.

Terça-feira, 9 de junho

Greves na USP são bichos estranhos: nascem todos os anos, mas experimentam um superdesenvolvimento sempre que se aproxima uma eleição. A deste 2009 era para ser uma daquelas pequenas.

Existia um movimento grevista completamente ignorado por 90% da população uspiana. Mesmo as unidades que sempre estiveram ligadas aos movimentos sindicais continuaram tendo suas aulas normalmente.

Já tinha lido a pauta de reivindicações no site do Sintusp (prefiro não comentá-la) mas, tão desligado que sou, fiquei sabendo somente através de uma notícia na Folha Online que a greve realmente tinha começado…

E aí o movimento quis aparecer. Houve uma tentativa de bloqueio da reitoria que não causou maior comoção e, finalmente, o momento máximo: o bloqueio do P1, principal portão de acesso à Cidade Universitária. Lógico que isso causaria algum impacto. Lógico que isso causaria algum problema. Fiquei sabendo dos planos e já me preocupei — não com a causa grevista, mas sim com a minha aula.

Sim, os grevistas têm direito à greve. Sou completamente favorável ao direito de expressão, reivindicação e o que quer que seja, mas desde que isso não afete o meu direito de ter aulas. Assim, eu devo ter gostado da presença policial no campus, certo? Errado.

A PM estava fazendo aquilo que foi instruída a fazer: acabar com o bloqueio do P1 e evitar possíveis destruições do patrimônio público. Eu não estava lá e, portanto, não posso afirmar se os alunos fizeram ameaças ou se a PM iniciou o ataque de forma unilateral. Apesar disso, quero me ater a outra coisa: a PM mostrou não ter condições de atuar numa situação como a que se tinha na entrada da Cidade Universitária naquele dia.

Numa foto que circulou durante a semana, vê-se claramente o policial portando uma arma enquanto enfrenta um aluno. Uma arma? Para acabar com um protesto de alunos, professores e funcionários de uma instituição de ensino? Alguém superestimou o potencial bélico dos uspianos.

Protestantes armados até os dentes

Protestantes armados até os dentes

As fotos e imagens de TV mostravam um grupo de policiais praticamente em formação de exército romano entrando na universidade enquanto os (perigosos) grevistas corriam em meio às árvores. Rapidamente surgiram no Twitter comentários dizendo que “a USP está sitiada” ou “os alunos estão em assembléia na História”.

Me senti transportado para Paris, Maio de 68. No fundo, é isso que os alunos sempre querem. Talvez nem Freud conseguisse explicar tamanho fetiche por questionamentos e enfrentamentos, mas isso é assunto para outro post.

Viagens à parte, as imagens são inegáveis. A entrada da PM foi com força superior à necessária e quem saiu perdendo nessa história foi a reitora. E, por favor, não me venham falar de polícia fascista do Serra ou bobagens do tipo.

Até o Grêmio Politécnico, de uma unidade que historicamente ignora os movimentos sindicais da Universidade, teve sua reunião de emergência para tratar do assunto. Nos dias que se seguiram ao evento, professores aderiram à causa e outras unidades (FAU, que me lembre) decidiram apoiar a greve.

Eu, aluno favorável à presença da polícia no campus e contrário às greves que atrapalham minhas aulas, de repente me vi com vontade de protestar e pedir a saída da reitora. Ela conseguiu a façanha de unir em torno de uma idéia única parte do público uspiano que estava alheia à greve.

Não sei quem é o culpado, mas sei quem já perdeu.


Cegueira

Setembro, 2008

Simples assim: eu achei que deveria falar de “Ensaio sobre a Cegueira“, novo filme do Fernando Meirelles. Com roteiro baseado no livro homônimo do José Saramago, português ganhador do Nobel, eu decidi que seria algo infilmável. Mas veja bem, eu li o livro em 2004. Me lembrei que ao lê-lo, imaginava milhões de cenas na minha mente criativa. Por que não seria possível transpô-las para a tela?

Morumbi - Brooklin way of life

Ora, nossa cabeça consegue manter dezenas de linhas de pensamento ao mesmo tempo. Você pode até não se dar conta disso, mas há muitas camadas de pensamentos na sua mente neste exato instante. Assim fica razoavelmente fácil conseguir imaginar qualquer coisa, inclusive um livro um pouco mais complexo como esse.

Complexo pois trata de uma coisa difícil de ser transformada em imagens. A cegueira, por sua própria característica, não é passível de maiores explicações. Uma cegueira branca, então, fica pior. Você imagina como deve ser, mas ver isso no cinema é difícil.

Exposto isso, aviso que esperava com ansiedade. Queria ver o resultado da produção, acompanhava o blog, lia as notícias. A ansiedade aumentou mais ao ver o teaser e o trailer.

E o filme?

Será sempre um prazer ver São Paulo sendo retratada sem ser na novela ou nas câmeras quase-VHS dos filmes brasileiros. Os primeiros segundos foram diferentes. Faria Lima com Juscelino, carros tipicamente brasileiros e atores falando inglês? Depois veio aquela sucessão de coisas que são estranhas pra quem mora na cidade: do Itaim para Higienópolis em duas cenas, dali para algum lugar do outro lado do rio, então para os Jardins e, finalmente, para o que parece ser Pinheiros. Pontes Eusébio Matoso e Bernardo Goldfarb tiveram seus momentos de fama – assim como sua prima rica, a Octávio Frias de Oliveira.

Achei que a fotografia tornou-se inconveniente. No começo era bacana ver a brincadeira “cegueira branca/tons brancos” mas depois encheu. Junto com os reflexos. Mas isso não é o mais importante.

O Minhocao fica assim aos domingos

O Minhocão fica assim aos domingos

Não houve maior desenvolvimento dos personagens. Do pouco que me lembro do livro, nele também não havia muitas delongas na história, mas isso se potencializou quando transformado em filme. O mesmo aconteceu com as cenas. Edição muito rápida, não deu pra parar e pensar no que estava vendo. A hora e meia que se passa dentro da quarentena trouxe muita informação e pouco tempo hábil para processamento.

Não vou reclamar do suposto esmaecimento das cenas nojentas ou violentas. Meirelles manteve, por exemplo, a cena que mais me marcou no quesito “nojeiras” enquanto eu lia o texto. E convenhamos que também não há muito como tornar mais ou menos violenta uma cena de estupro, que foi a mais comentada enquanto se produzia o filme. Qual teria sido a primeira versão, que foi cortada após senhorinhas terem saído da sala de exibição numa sessão piloto? Sexo explícito? Não era a isso que o filme se propunha e, se for assim, ok.

E um narrador não era necessário. Ele se dá ao luxo de explicar o que está acontecendo no final da história. Por quê? Por quê?

Regular.


O Grande Colisor de Hádrons

Setembro, 2008

O CERN é a Organisation européenne pour la recherche nucléaire ou, em português, Conselho Europeu para a Pesquisa Nuclear. Essa instituição está localizada nos arredores de Genebra, bem na fronteira da França com a Suíça — inclusive pode-se entrar no centro de pesquisas pela Suíça e sair pela França ou vice-versa.

CERN

Aí no meio passa a fronteira da França com a Suíça

Quando estive em visita a essa bela cidade-sede da ONU, quase fui ao CERN. Para chegar lá é bem fácil: pega-se um ônibus na Gare de Cornavin e, em minutos, alcança-se a portaria. Não fui pois me disseram que não tem nada pra ver lá. Meu objetivo era poder dizer aos amigos que já estive no lugar onde foi inventada a World Wide Web.

Sim, senhores. Foi no CERN que criaram essa maravilha que é a plataforma em que se baseiam todas as páginas da internet. Sempre que você digita www-alguma-coisa está usando uma tecnologia desenvolvida nos laboratórios do CERN.

Hoje, 10 de setembro, é um dia muito importante para a história desse lugar e para a história do mundo. Dentro de mais algumas horas o LHC – Large Hadron Collider será ligado. Esse aparelho, enterrado cem metros abaixo dos prédios que formam o complexo franco-suíço, é o maior acelerador de particulas já criado pelo homem.

A primeira vez que li sobre um acelerador de partículas certamente foi numa Superinteressante qualquer, décadas atrás. Desde então me maravilho com essas coisas.

Grosso modo, o LHC é um tubo circular com 27 quilômetros de diâmetro (imagine o tamanho) onde prótons serão jogados uns contra os outros a velocidades próximas à da luz. Com custo estimado em 8 bilhões de reais, o objetivo do tubão é criar outras partículas e enxergar pela primeira vez o bóson de Higgs, uma das partículas elementares que formam tudo que existe. Além disso, os físicos pretendem encontrar outras dimensões. É sério.

Às três e meia da manhã no Brasil, oito e meia na Suíça, vão ser iniciadas as experiências que podem levar ao fim do mundo.

Há algum tempo circulam pela imprensa e pela internet textos onde se chama a atenção para a possibilidade do LHC provocar pequenos buracos negros que, como qualquer buraco negro, engoliriam o que estiver em seu redor. Uma reação em cadeia poderia levar o universo a desaparecer em minutos.

Outra possibilidade, igualmente poética, seria a criação de strangelets. Essas partículas, como o nome diz, são “estranhas” e, bem, podem acabar com o universo através de um processo de fusão. Tudo se tornaria uma grande massa, talvez uma grande gosma negra. Em ambos os casos, terminaríamos todos juntos, grudados, para sempre.

Para saber se o LHC já destruiu a vida e a não-vida, clique aqui.

Foi um prazer.


A pior viagem

Julho, 2008

Era um trem da Magyar Államvasutak, ou, como eles chamam, Máv. A linha: Bucureşti Gara de Nord – Praha hlavní nádraží. A viagem toda dura mais de 24 horas, quando sem atrasos, mas a peguei na metade final. Embarquei na estação Budapest Keleti pályaudvar, ou, como eles chamam, Budapest Keleti pu. Era o começo da pior viagem que já fiz na minha vida.

O trem já estava na estrada há 13 horas, sacolejando desde a distante Bucareste, capital romena que fica quase na esquina com a Bulgária. Ao chegar em Budapeste, sentia o calor que emanava das rodas de ferro que já deviam ter rodado milhões de quilômetros por aquelas ferrovias construídas durante o regime soviético. Uma baciada de gente feia descia pelas portas apertadas enquanto observávamos impávidos aquele povo sofrido. Nós, fortes e bem-nutridos, com nossas mochilas pesadas e toda a garra de um passeio absurdo pelos cantos da Europa. Era começo de noite na Hungria e o sol ainda estava longe de se pôr. Seus raios alaranjados passavam pelos vidros e pela grandiosa entrada da estação.

Às 19h17, partimos.

Deixava para trás uma cidade pela qual me apaixonei e o medo começava a tomar conta de mim: serei assaltado? morto? seqüestrado? Às 21h32 chegamos em Győr e deixamos o país da língua do demônio para entrar na Eslováquia. Tempos depois, o trem passou lentamente pelo centro de Bratislava até ficar vinte e quatro minutos parado em Bratislava Hlavna Stanica, a principal estação da capital eslovaca. O relógio batia 23h44 quando voltamos a nos movimentar e eu olhava pela janela as luzes dos outdoors naquele país que não existia 14 anos antes.

Nesses momentos pensava o que meus amigos e minha família estariam fazendo no Brasil, onde ainda não eram 18h. Talvez estivessem no trânsito ou em casa vendo a novela. Eu não. Eu estava num trem na Eslováquia.

Břeclav foi a primeira parada na República Tcheca, à 1h15. Passamos por Brno, a segunda maior cidade do país, às 2h15 e finalmente chegamos a Praga, terra natal de Franz Kafka e da Revolução de Veludo, às 6h14. Foram onze horas no balanço, no desconforto e na sujeira. Isso foi há exatamente um ano.

Sinto saudades.


Piratas do Tietê

Maio, 2008

O Domo do Milênio, em Londres, foi o grande erro de Tony Blair. Parecia uma coisa bacana fazer uma espécie de coliseu moderno na periferia da cidade, mas iam usar pra quê? Aconteceu que o Domo virou um elefante branco e foi vendido (ou dado em comodato, sei lá) pra O2, uma operadora de telefonia na Inglaterra. Virou The O2 e transformou-se num espaço para mostras e restaurantes e palco de grandes eventos esportivos ou musicais.

Por exemplo, Daniella Mercury.

A autora de “Alegria agora” irá se apresentar na capital britânica no dia 6 de Junho, no espaço chamado “indigO2″, que é tipo um Baretto. Mentira, é tipo um palco menor dentro da mega tenda que é The O2. Por 40 libras você verá Daniella e o Balé Mulato. Mas porque estou falando disso mesmo? Ah, sim, o Domo. Fica meio longe do centro de Londres, mas dá pra chegar lá de metrô, carro, táxi, ônibus, DLR (que é tipo um monotrilho) e trem. Ou, a minha preferência, de barco.

O Thames Clipper é um serviço de barcos pelo Tâmisa oferecido por uma empresa privada que pode levar os espectadores ao O2. O Thames Clipper também administra o serviço “Tate to Tate”, que conecta a Tate Modern com a Tate Britain via rio. Mas voltando ao show da Daniella, convenhamos que é muito mais chique pegar um barco na London Bridge e descer seis pontos depois na O2. Se você for mais chique ainda, paga mais caro, embarca no O2 Express na Waterloo Bridge e vai direto — bebericando champanhe. De 2,50 a 18 libras, é tudo uma questão de escolha. Aposto que o Balé Cafuzo (ou Mulato, sei lá) vai desse jeito.

Isso me faz pensar que falta algo assim em São Paulo. Alguém poderia, por exemplo, pegar um barco no viaduto Imigrante Nordestino, o mais ao leste da Marginal Tietê, e descer uma meia hora depois na avenida Interlagos, no ponto mais ao sul da Marginal Pinheiros, pra ver a Fórmula 1. (na verdade, ali nem é mais marginal, mas deu pra entender a idéia)

Imagina que beleza deixar seu carro estacionado na USP, ir num shuttle exclusivo até o pier Cidade Universitária e entrar num barco-bar que o levará até a ponte Transamérica. Lá você desceria e entraria em outro shuttle exclusivo que o deixaria na porta do Teatro Alfa. Imagine as mulheres com chapéus enormes… Depois jantariam no restaurante no topo da ponte estaiada. Seria um retorno à belle époque paulistana. Poderia até ser criado um circuito do jet-set, com paradas na Hebraica, no Jóquei e na Daslu, além do já citado Alfa.

Mas somos uma cidade de muitos contrastes. Não podemos apenas pensar na alta sociedade e, por isso, proponho a criação de linhas como a Expresso Morumbi. Ela servirá tanto para os trabalhadores se deslocarem até a Berrini, quanto para os torcedores chegarem ao estádio homônimo em dias de jogo. Os corinthianos adorariam poder embarcar na ponte do Tatuapé e descer com tranqüilidade e conforto minutos depois na ponte do Morumbi. O problema seria possíveis brigas entre torcidas. Não gostaria de acordar na quinta-feira e ler na capa da Folha: “Embate entre torcidas afunda barco com são-paulinos nas imediações da ponte Bernardo Goldfarb”.


3 de Maio

Maio, 2008


Virada Cultural – v. 4

Abril, 2008

O fato é que eu, num acesso de infantilidade, achei que conseguiria ficar em casa estudando para a prova que terei nesta semana. Com isso, deixei de sair ontem à noite para ver as atrações da Virada Cultural. Obviamente não estudei. Certo de que não poderia deixar de ver uma coisinha que fosse na festa deste ano, deixei minha casa à tarde com destino ao Teatro Municipal. Lá chegando, veria o show de Fabiana Cozza, uma cantora sobre a qual uma amiga não pára de comentar. Meus colegas chegaram todos atrasados e, bem, havia uma fila gigante em volta do Teatro — não para ver Fabiana, mas sim Jair Rodrigues. Ok, tem show dela no Auditório Ibirapuera no começo do mês.

Seguimos então para a av. São João. Queríamos ver Jorge Ben e seus pê-pê-re-pês-taj-mahal infindáveis e inegavelmente dançantes. No caminho, centenas de pessoas andando pelas ruas do centro e a sensação de satisfação que me acontece todos os anos durante esse evento. Cheguei a comentar que agora me lembrava a Fête de la Musique que participei em Genebra… Rapidamente fui enxotado e continuamos caminhando naquele calor que era maximizado pelo asfalto e pelos prédios.

Ao atingirmos o ponto histórico de São Paulo, a esquina com a Ipiranga, fomos enfeitiçados pelo brilho do Bar Brahma. Tentamos seguir em frente para ver Jorge mais de perto, só que o chopp gelado foi mais forte. Acabamos ficando nas mesinhas da área externa do bar ouvindo samba rock, dançando sem sair das cadeiras e aproveitando o início de noite na cidade.


On a rooftop in… São Paulo

Março, 2008

“Aqui é mais alto que o Skye”, disse a jovem bem vestida assim que saiu no heliponto do edifício New England, em Higienópolis. O céu nublado daquela noite de outono emoldurava as luzes do Pacaembú e região, sendo que dava para ver até pra lá da Marginal Tietê. Fosse de dia, seria possível encontrar vários pontos conhecidos.

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Na sexta-feira chegou o email me convidando: “tenho convites para o Johnnie Walker Black Label Unseen New York”. Hein? A marca de bebidas está proporcionando uma série de “experiências únicas” em algumas cidades do mundo e São Paulo é uma delas. No mês passado houve um blind dinner (como se chamam essas coisas?) e, agora, um filme no alto de um prédio. A idéia é se sentir em Nova York.

Nos aproximamos um pouco da cidade americana devido ao vento, ao frio e à garoa que nos presentearam com esse clima “escocês”, segundo o embaixador do Johnnie Walker que estava entre nós, falando com seu sotaque carregado e seu kilt. Houve farta distribuição de água, refrigerante, uísque e petiscos. A distribuição de cobertores, no entanto, não foi tão farta. “Vai ser ótimo pra pegar uma pneumonia”, disse alguém.

O filme? Bem, “Encurralados”, com Pierce Brosnan, não é recomendável.


Cinema político, essas coisas

Março, 2008

Revi nesta semana “Persépolis”, a animação-diário de Marjane Satrapi sobre sua infância e adolescência num Irã em ebulição política e social. Alguns filmes ficam melhores na segunda vez, mas definitivamente não foi o caso aqui. Lembro-me de ter saído daquela seção na Mostra um tanto maravilhado… Bobagem. Eu estava bem ansioso para vê-lo e isso talvez tenha ocupado minha mente durante a projeção. O fato é que o filme não é tão bom assim, mas vale o ingresso.

Hoje vi “O Banheiro do Papa”. Esse ficou pra trás na Mostra e, bom, eu diria que é peculiar. Devido à visita de João Paulo II, um furor capitalista toma conta da pequena, pobre e precária Melo, no Uruguai. Moral da história: Deus castiga os que visam o lucro. Mesmo porque enriquecer é pecado, segundo a nova lista divulgada pelo Vaticano. Uma pena, mas vou pro inferno.


BR-3 fazendo escola

Março, 2008

Pra quem não sabe, “BR-3″ é uma peça do grupo Teatro da Vertigem que foi encenada dentro do rio Tietê.  Algumas das sensações mais estranhas que já senti aconteceram ali, num barco navegando pelo grande esgoto que corta minha cidade. Meses e meses mais tarde, repeti a experiência na Baía da Guanabara, quando a trupe reencenou a peça dentro do festival RioCenaContemporânea. A piadinha “o Vertigem vai encenar ‘BR-3′ no RioCena” ficou mais verdadeira depois que li uma reportagem sobre o Tietê (ou quase isso) no Valor Econômico de quinta-feira.

Que cena foi aquela? Um grupo de gente sobre o convés de um barco, navegando em pleno rio Tietê, erguendo os braços e fazendo “ola” para motoristas de carros, ônibus e caminhões nas marginais travadas, numa manhã cinzenta em São Paulo, na altura do Cebolão? E os motoristas dos carros, ônibus e caminhões, todos devidamente engarrafados, respondendo com acenos e buzinas aos amalucados que navegavam no trecho urbano mais degradado do rio, tomando Prosecco e escutando um saxofonista como se tudo aquilo fosse muito natural? Pois aconteceu no sábado passado e espantou até os urubus que espreitavam às margens.

Assim começa o texto “Bem-vindo ao Tietê“, da Daniela Chiaretti, sobre uma estranha visita de um grupo de arquitetos e amigos de arquitetos ao rio. “Estou me sentindo em Paris”, arrisca Ana Mantovani, professora de história da arte. Realmente o Tietê é nosso Sena.

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Ceci n’est pas une pipe.

Segundo o ARQ!BACANA, foi…

Uma oportunidade única de se aproximar de São Paulo, através de uma experiência absolutamente inovadora e diferente, ao som do sax alto do músico Guilherme Figueiroa, com prosecco no “convés” do Almirante do Lago, em plena calha do Tietê.

Alguém me diz que isso foi proposital, por favor.

Depois de “BR-3″ veio o desfile da Cavaleira na São Paulo Fashion Week e, agora, essa visitinha de membros da classe pensante. Ainda neste mês Eduardo Srur, um artista plástico que sempre surge com intervenções bacanas, vai jogar na água garrafas pet enormes. Tenho a impressão que desde a peça do Vertigem tem havido uma atenção maior ao rio, se é que posso dizer assim. Ou talvez seja apenas uma curiosidade insólita.

Ficou interessado? No site você encontra informações sobre as visitas (Tietê: 50 reais, com direito ao prosecco e ao sax) que vão acontecer ou já aconteceram. Recomendo o passeio pelos Artachos.